Auto-estrada quase concluída! E agora?

Poucos dias após ter sido concluído o troço que liga a auto-estrada do sul a Ourique, e depois de ter sido feito o anúncio de que para o ano estará concluído o que resta da ligação ao Algarve, é com alguma preocupação que vejo o futuro desta região.

A realização desta obra não é um fim em si mesmo. Ela serve logicamente para reduzir o distanciamento entre esta zona ultraperiférica e o resto da Europa, e claro está, do resto do país. Com a sua conclusão ganham todos aqueles que estabelecem relações comerciais com o Algarve na medida em que será com maior rapidez e logo com maior eficiência em termos de custos que as trocas se irão realizar. Por outro lado os turistas que nos visitam quer sejam eles portugueses ou estrangeiros ficarão servidos de uma via de comunicação que lhes permite chegar ao Algarve com outra comodidade e sem as filas intermináveis que são notícia todos os anos durante a época balnear. Aquilo que me preocupa não é portanto o facto de com a realização desta obra, passarmos todos a ficar melhor servidos, mas sim o facto de parecer aos olhos dos nossos dirigentes e governantes que depois desta obra nada mais há a fazer. Se assim é permitam-me dizer que estão rotundamente enganados.

O Algarve continua após todos estes anos e depois de um relatório Porter que custou centenas de milhares de contos ao país a não produzir nada que seja significativo em termos de peso económico na região. Não é preciso ser nenhum expert para se saber que é da transformação de produtos que se gera a riqueza de um país. Industria como a da transformação de pescado e sua conserva, as fabricas de cortiça e de transformação de amêndoa e alfarroba já foram no Algarve grandes fontes de riqueza. Hoje como todos sabemos caíram no esquecimento porque não se soube estruturar ou não se soube apoiar devidamente. A nossa agricultura também já conheceu melhores momentos e nem a nossa famosa laranja consegue ser comercializada e promovida apesar da qualidade que oferece e dos óptimos sumos que dela se fazem.

Nos tempos que correm o Algarve é essencialmente uma região prestadora de serviços relacionados directa ou indirectamente com o turismo. Desta actividade dependem grande parte dos agregados familiares da região para além de que esta constituí para o país uma das maiores fontes de entrada de divisas. No entanto não será exagero meu dizer que o pão de hoje pode ser a fome de amanhã. Grande parte das transacções que se estabelecemrelacionadas com o turismo não fazem se quer passar o dinheiro por Portugal, pois é do conhecimento de todos que são os grandes operadores turísticos internacionais que mandam no nosso turismo e que são donos da grande maioria das unidades hoteleiras de qualidade que cá existem. Enquanto o futuro da actividade turística não estiver de novo nas nossas mãos, enquanto não se apostar na reabilitação da industria de transformação já referida anteriormente e não se procurar formas de inovação, enquanto não se requalificar os espaços urbanos que a construção civil vai aos poucos descaracterizando, enquanto não se derem condições de vida condignas aos habitantes do interior algarvio, temo que a auto-estrada do Algarve não vá servir para mais nada senão para transacção de turistas.

Apesar do que está feito, ainda está tudo por fazer!

Tiago Torégão
Economista
Notícias do Algarve 30.07.2001

 

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