Diversidade Vs Identidade Cultural

Desde sempre que o homem sentiu curiosidade em conhecer outras terras, outras gentes e outras culturas. As diferenças existentes entre estas e a nossa cultura permite-nos alargar os horizontes, acabar com preconceitos e enriquece-nos, tornando-nos mais humanos, mais cultos e capazes de valorizar de forma mais categórica a importância de viver em diversidade. Os discursos nacionalistas (não os patrióticos) não fazem por isso qualquer sentido se pensarmos que, por exemplo, os Estados Unidos da América, apesar de todos os problemas raciais que viveram desde a sua independência, assentaram o seu desenvolvimento económico e social numa população de emigrantes vindos das mais variadas regiões do Globo, mas que souberam respeitar os diferentes costumes e religiões e construir em conjunto um dos países mais desenvolvidos do mundo.

Numa altura em que o nosso país e a nossa região são "invadidos" diariamente por milhares de emigrantes que vêm a procura de melhores condições de vida, é com certeza necessário não perder de vista o que atrás foi dito. As condições de vida atrás referidas, serão obtidas pelo esforço e trabalho de quem não teve no seu país de origem as devidas oportunidades, e vê em Portugal um país desenvolvido com falta de mão de obra em determinados sectores de actividade como a construção civil, a agricultura e outros tipos de trabalhos pesados que o português já não esta para fazer.

É portanto preciso, que o estado saiba garantir que os direitos destes trabalhadores são preservados e que lhes serão dadas as condições de vida que estes merecem, com pena de que se não agirmos assim podemos estar a correr o risco de estar a dar Vistos a um grupo de potenciais marginais a viver em condições sub-humanas e deixando os seus filhos ao deus dará.

De maneira geral estes emigrantes, apesar das suas diferenças culturais e linguisticas, procuram assim que chegam ao nosso país adaptar-se o mais depressa possível às diferenças existentes. Aprendem a língua, convivem com os hábitos e os costumes e sofrem dessa maneira um processo de aculturação. Desse ponto de vista todas as conclusões que possamos tirar são pacíficas. No entanto, gostaria aqui de fazer um alerta sobre outro tipo de fenómeno que esta a ocorrer noutros destinos turísticos privilegiados como o nosso, e que são alvo da preferência de outro tipo de "invasores" - os turistas.

Em Espanha, na Ilha de Maiorca, por exemplo, 20% dos donos das terras são alemães. Estes trouxeram grande prosperidade aos habitantes da ilha uma vez que pelo forte poder de compra que têm dinamizaram toda a actividade económica. Estes turistas não habitam na ilha apenas nos períodos de férias, sendo que muitos deles aproveitam os fins de semana para descansar nas suas belas casas com os iates à porta e dessa forma desfrutar de um clima espectacular. Apesar da media de proprietários de terras ser de 20% existem zonas da ilha onde essa percentagem chega a atingir os 50%. Estes dados retirados de uma revista nacional com grande tiragem, seriam naturais numa zona onde existe total mobilidade de capitais, não se desse o caso de estes imporem aos habitantes da ilha a sua língua, costumes e até preferências gastronómicas. Este tipo de comportamento que revela uma total falta de respeito pela cultura e tradições da ilha já levou a que começassem a aparecer pinturas nas paredes defendendo que "Maiorca não é a Alemanha" ou "Não ao alcoolismo alemão". O "mau estar" expresso por estas frases é resultado do facto de estes turistas não se integrarem na vida local.

Noutra ilha da vizinha Espanha - Canárias - alguns partidos políticos mais extremistas já manifestaram intenção de combater a praga de turistas que todos os anos chegam à ilha e se comportam como se esta estivesse a saque.

Gostaria de dizer que nada tenho contra os turistas, antes pelo contrário, já que estes são o sustento de uma grande parte das pessoas que vive neste Algarve, e que permitem que a actividade turística seja a maior desta região. No entanto é necessário que nós façamos prevalecer a nossa identidade cultural não nos subjugando aos desejos daqueles que têm maior poder de compra, pois corremos o risco de nos tornar-mos numa sociedade completamente descaracterizada.

Para aqueles a quem estas palavras poderão parecer excessivas, bastará pensar numa cidade algarvia conhecida pela sua vida nocturna e onde é possível comer pequenos almoços ingleses a qualquer hora e beber canecas de cerveja até de madrugada num dos inúmeros pub's propriedade de britânicos radicados em Portugal.

Volto a dizer que nada tenho contra os turistas nem contra a actividade económica que lhe esta associada, mas quem passear nas ruas dessa cidade pouco conseguirá encontrar que possa ser identificado com a cultura Algarvia. É esta a região que queremos para nós?

Tiago Torégão
Economista
Notícias do Algarve 27.08.2001

 

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