logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Prever o futuro ou preparar o futuro?

Numa altura em que o país vive uma situação financeira e orçamental difícil, para não dizer económica (os problemas são acima de tudo estruturais), por via do nosso compromisso com a União Europeia e da necessidade de cumprir com o Pacto de Estabilidade e Crescimento, ganham importância os exercícios de planeamento estratégico das autarquias. Como é do conhecimento da opinião pública, os cortes orçamentais que estão a ser feitos pelo governo, no sentido de controlar o défice da despesa pública, estão já a afectar a grande maioria dos nossos municípios, na medida em que estes são obrigados a modificar os parâmetros em se baseiam as práticas do planeamento tradicional, e obrigando os responsáveis pela sua gestão a perspectivarem (internamente ou com apoios externos) a gestão das mudanças em curso. A agravar esta situação, está ainda, o facto de que este "apertar do cinto" ocorre num momento de contraciclo, ou seja, em que a economia não está em crescimento e o país necessita de um incentivo por parte do estado ao nível do investimento público.

Existem várias definições de planeamento estratégico. Uma dessas definições, da Arthur Anderson & Co, diz que "O planeamento estratégico é um processo para gerir a mudança e para descobrir os caminhos de futuro mais promissores para as cidades e as colectividades locais. Este processo consiste em colocar no centro das atenções as fraquezas e as oportunidades das cidades e colectividades locais". Na prática esta ferramenta deve, entre outras coisas, ajudar os autarcas a terem uma visão do futuro; definir prioridades de acção e afectação de recursos; tomar decisões e prever as suas consequências futuras; resolver os principais problemas da organização; adaptar as suas acções e medidas ao ritmo da mudança; melhorar as suas estruturas; e promover o trabalho em equipa e a especialização. No entanto, é preciso ter claro, que este esforço de revitalização do tecido social e económico não pode, nem deve, ser feito de forma isolada. Mesmo sabendo que esta iniciativa depende normalmente do poder político, conduzida pelo presidente da autarquia, este não deve esquecer alguns pressupostos de participação colectiva, pelo que deverá desenvolver um esforço no sentido de chamar ao processo responsáveis por departamentos sectoriais de organismos da administração central e regional, uma vez que podem ajudar a compreender quais as melhores opções a tomar; as associações empresariais, na medida em que são os interlocutores privilegiados dos interesses do sector privado; a universidade, que poderá contribuir através do seu conhecimento científico e técnico para a elaboração do plano e em termos futuros desenvolver actividades de investigação e de prestação de serviços que sirvam de suporte à comunidade; e por último as organizações de cariz cultural e social e as associações/agências de desenvolvimento que pelo facto de desenvolverem uma actividade de intervenção mais horizontal poderão ajudar a encontrar os actores mais adequados para levar a cabo as acções que forem definidas.

A grande maioria dos conceitos relacionados com o planeamento estratégico nasceram ao nível da gestão privada e são hoje considerados algo inovadores ao nível da gestão pública. No entanto, estes são assentes em pressupostos que não vão ao encontro da máquina do estado, pouco flexível, demasiado burocratizada e pouco eficiente, tudo conclusões que fazem adivinhar que os tempo que se avizinham exigem por parte dos presidentes de câmara bastante coragem política, na medida em que obrigam a tomar decisões pouco populares, como por exemplo, a redução do número de funcionários.

Daqui a três anos os eleitores saberão julgar se o tempo foi passado a fazer exercícios de futurologia ou a preparar o futuro.

Tiago Torégão
Economista
Jornal do Algarve 24.10.2002

 

Jornal do Algarve

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