Apelo aos "Barrigudos"

O desporto e a prática de actividades físicas são desde os tempos da mitologia grega considerados como elementares na educação e formação de qualquer cidadão. Mais do que o culto do corpo firme e bonito, a prática de actividades desportivas serviu, e serve, para formar o carácter dos indivíduos e lhes incutir uma determinada atitude competitiva, na procura de melhores performances, e ao mesmo tempo solidária, fazendo vir ao de cima a capacidade de entreajuda, nomeadamente nos desportos colectivos, desenvolvendo o espírito de equipa e consciencializando todos os praticantes de que existem regras e que estas têm de ser cumpridas.

Todos estes elementos permitem fazer, de uma forma muito natural, uma analogia para a vida em sociedade. O elemento competição existe desde os tempos de escola em que se luta por boas classificações, até à entrada na universidade. O mesmo será de dizer da entrada na vida profissional e a procura de um lugar onde se possam desenvolver e pôr em prática os conhecimentos adquiridos durante a vida académica. Podem ser dados um sem número de exemplos onde o elemento competição esta presente. No entanto, e embora por vezes pareça que não, existem regras para viver em sociedade, e o espírito de solidariedade e o trabalho em equipa são fundamentais para quem procura desenvolver uma actividade profissional de sucesso em harmonia com todos.

Quero com estes breves mas elucidativos exemplos dizer, que praticar desporto é bom, dá saúde e faz "crescer", para além de que é fundamental para o adquirir de uma auto-estima que tantas vezes nos falta. No entanto e quando olho para a realidade portuguesa em matéria de educação e mais propriamente à educação física, constato que a falta de objectivos e de estratégia chega a ser assustadora. Durante muitos anos falou-se de falta de infra-estruturas para a prática desportiva, o que levou a um grande incremento na construção de pavilhões gimnodesportivos por esse país fora. Este era então o grande objectivo. Hoje em dia a realidade permite-nos prever que qualquer dia existem mais pavilhões do que atletas. Aquilo que se aprende nas escolas neste matéria, salvo raras excepções, é francamente pouco, e se a falta de infra-estruturas e de material desportivo serviu de desculpa durante muitos anos, hoje em dia a realidade é algo diferente. Ainda hoje não percebo a total ausência a que a actividade desportiva é votada nas universidades, ou pelo menos, o facto de esta não ser incentivada da forma que deveria ser por todos aqueles que se interessam pela formação e valorização de cidadãos, e por vezes fico espantado com a forma pouco séria com que alguns professores de educação física durante o primeiro, segundo e terceiro ciclo, e mais tarde durante o secundário, encaram o leccionar desta disciplina, isto para não falar da forma como os professores de outras disciplinas o fazem. Para muitos deles a educação física não passa de ensinar a dar cambalhotas. Já vimos aqui que a sua importância vai muito para além disso...

Por outro lado, os clubes e agremiações desportivas desempenham neste capítulo um papel de grande importância. Nestas instituições com carácter de Utilidade Pública, os jovens têm a oportunidade de passar de uma forma saudável os seus tempos livres, fazer novas amizades, e claro está, praticar desporto quase sempre de borla. Infelizmente, a grande maioria destes clubes é ainda pouco autónoma, vive da carolice de gente cheia de boa vontade mas com pouca qualificação, quer ao nível de gestão dos recursos, quer ao nível da pedagogia e metodologia dos treinos, e de alguns subsídios que as autarquias disponibilizam, muitas vezes sem que se compreenda qual o critério seguido para a atribuição dos mesmos.

Num tempo em que cada vez mais existem alternativas aos jovens para passarem os tempos livres, e em que os jogos electrónicos e a televisão ocupam grande parte desse tempo, os clubes e as agremiações desportivas só poderão sobreviver se se souberem adaptar às novas exigências que o tempo trouxe e que não se coadunam com amadorismos.

É necessário que todos nos unamos no sentido de apoiar estas entidades e que todos saibamos compreender as dificuldades com que os professores nas escolas de ensino se debatem no dia a dia, mas a bem das futuras gerações, também é necessário que se exija mais rigor, profissionalismo e seriedade, pois todos sabemos que quando se trata de educar jovens todos os cuidados são poucos.

Às autarquias caberá o papel de incentivar e criar condições para que todos tenham acesso ao desporto nas melhores condições possíveis, tendo o cuidado de o fazer através de políticas que não sirvam para esvaziar ainda mais o papel que o associativismo desempenha, desenvolvendo em parceria, e só em parceria, todas as acções que permitam a estes ganhar a sua autonomia.

Ao governo deve-se exigir que clarifique rapidamente se a educação é ou não uma prioridade estratégica importante para o país. Se assim for ao desporto caberá sem dúvida um papel muito importante por todos os motivos já apresentados e mais algum. Não basta realizar grandes eventos desportivos que serão concerteza mobilizadores e factor de atracção para a pratica do desporto, se não se desenvolverem instrumentos que ajudem a criar uma cultura interessada pela prática desportiva modernizando as suas estruturas e infra-estruturas, qualificando os seus técnicos e adaptando-as às exigências dos dias de hoje.

Perante o cenário aqui apresentado temo que tudo continue na mesma, a menos que se crie um lobby para que desapareçam todos os "barrigudos" que temos no poder.

Tiago Torégão
Economista
Notícias do Algarve 24.09.2001

 

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