O Interior Algarvio

Nos tempos que correm é frequente ouvir dizer que o Algarve é uma bagunça no Verão e uma pasmaceira no Inverno. Muitos destes comentários, são feitos por quem tem por habito visitar-nos para gozar um período de férias mais alargado, um fim de semana, ou simplesmente por motivos profissionais. Apesar de o exemplo dado não ser o resultado de um questionário exaustivo a propósito da opinião que os portugueses têm sobre o Algarve, permite com certeza que se faça um pequeno exercício sobre alguns dos problemas que a nossa região atravessa e as soluções que temos para os resolver ou minorar.

O Algarve, apesar de por vezes nos esquecermos, é muito mais do que sol e praia e grande parte, felizmente, ainda se encontra por descobrir. Refiro-me logicamente ao interior Algarvio, que apesar da deserção que tem vivido e do pouco desenvolvimento económico, tem sabido conservar as suas tradições e a sua identidade, sendo uma das maiores mostras da mais genuína cultura Algarvia. Salvo raras excepções que é preciso salvaguardar, o interior algarvio é quase a antítese do litoral. A densidade populacional é pequena, a especulação imobiliária não se faz sentir, existe sossego em qualquer altura do ano e a descaracterização do território e da nossa identidade ainda não se fez sentir. O interior do Algarve apresenta por isso um conjunto de vantagens sobre as quais é preciso tirar proveitos desde que se garanta que não se vão cometer os mesmos erros que se fizeram no litoral.

A actividade turística como qualquer actividade económica sofre alterações em função da oferta existente e das exigências do mercado. O número de turistas que procuram actividades de lazer relacionadas com a descoberta do território e natureza, e a cultura é cada vez maior. No entanto este mercado que começa agora a procurar o interior algarvio, só terá expressão quando existir uma oferta qualificada que lhe confira massa crítica e portanto se possa tornar visível aos olhos dos operadores turísticos. Tudo isto só será possível com o apoio e forte investimento das entidades competentes, nomeadamente em áreas como a requalificação das vilas e aldeias típicas do Algarve, a melhoria das acessibilidades, a valorização do nosso património arquitectónico, a formação de pessoal que trabalha na restauração e nas muitas pousadas e hospedarias ainda existentes. Ao mesmo tempo é necessário fomentar a criação de negócios relacionados com os produtos típicos, sejam eles de carácter artesanal ou agrícola, dos quais os licores e os enchidos são hoje em dia um bom exemplo.

A dinamização do conjunto de actividades atrás descritas, aliada a actividades de animação relacionadas com as festas populares e mostras de produtos regionais, irá concerteza tornar mais atractiva esta zona do Algarve, permitindo que os jovens não abandonem o território em direcção ao litoral, uma vez que o emprego gerado e o desenvolvimento de uma actividade turística de qualidade são em termos profissionais muito estimulantes e capazes de fazer face às expectativas económicas destes.

Apesar de ser do conhecimento geral que esta a ser feito um esforço no sentido de criar instrumentos que permitam viabilizar o conjunto de ideias atrás desenvolvidas para o interior do Algarve, e que de maneira nenhuma são originais, parece-me a mim que a real importância estratégica, de complementaridade ao turismo de sol e praia e de combate à sazonalidade, que o interior do Algarve oferece, não esta ainda a ter por parte das autarquias o devido acompanhamento, continuado o esforço de investimento a ser feito apenas no litoral, votando ao abandono este território cada vez mais envelhecido e que merecia maior atenção.

Tiago Torégão
Economista
Notícias do Algarve 22.10.2001

 

Comentar este artigo           Imprimir Imprimir

Voltar à Página de Tiago Torégão