logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Aldeias do Algarve

Li há pouco tempo em duas publicações semanais do nosso país, artigos que faziam alusão à venda de aldeias com o objectivo de as transformar em parques temáticos. Apesar de alguns pensarem que tal ideia é fazer vir ao de cima o Portugal mais pobre e coitadinho de que há memória parece-me bem. De que temos afinal de nos envergonhar se é nestas aldeias que reside a origem e o berço do Portugal mais profundo, e onde é possível ainda descortinar as tradições mais antigas, populares e verdadeiramente genuínas do nosso país (muito mais do que do Carnaval). Pior seria se não tivéssemos consciência disso e nos quiséssemos fazer passar por aquilo que não somos, tal qual um novo rico ostenta um título de sangue azul comprado na esquina.

Desde o ano de 2000 que a ex-Comissão de Coordenação da Região do Algarve lançou um programa de intervenção e requalificação de 11 aldeias do Algarve, a saber: Cacela Velha, Odeleite, Vaqueiros, Cachopo, Estoi, Querença, Paderne, S. Marcos da Serra, Caldas de Monchique, Budens e Carrapateira. Este programa, financiado pelo PROAlgarve, pretende através de diversas iniciativas, atrair e fixar as populações, dotando estas de infra-estruturas, equipamentos e dinâmicas que tornem estes territórios atraentes para quem procura um local onde residir.

O conjunto de investimentos que foram e estão a ser feitos nestas onze aldeias denota uma tendência completamente contrária àquela que tem sido feita ao nível do investimento público, tradicionalmente virado para as zonas urbanas do litoral, e demonstra a preocupação que existe com uma zona do Algarve onde a identidade e as raízes de um povo ainda não se encontram descaracterizados. Criar condições para que as zonas denominadas de baixa densidade do Algarve se possam desenvolver de uma forma harmoniosa, requalificando e dotando-as de todos os equipamentos necessários para uma vida em família em pleno século XXI, é não só um exemplo de rara visão, como uma prova de que é possível desenvolver projectos onde o interesse genuíno das populações é uma prioridade.

Muito do futuro do turismo desta região passa inevitavelmente por aqui e pelo criar de instrumentos que permitam financiar e apoiar actividades de animação turística durante todo o ano. A transformação destas aldeias em museus vivos de história, onde têm lugar as festas tradicionais, os petiscos únicos, os trajes típicos, o alojamento em espaço rural, os ateliers de artesanato, é todo um manancial de produtos turísticos que está à mão de semear e para os quais é preciso que as autarquias comecem a olhar com outros olhos, não perdendo de vista que o interesse destas deve estar em primeiro lugar, e não o interesse de alguns investidores imobiliários com projectos que não têm pés nem cabeça.

A verdade é que, para todos os que residem nesta região e procuram uma identidade, que não seja balofa e não envergonhe ninguém, é necessário, salvo raras excepções, que nos desloquemos para o interior. Enquanto algarvio tenho esperança que este e outros projectos da mesma índole não caiam em saco roto, e que as estratégias de promoção do nosso Algarve passem a ser mais canalizadas pela via do que é autentico e genuíno, em vez de acontecimentos pontuais e desenraizados que pouco nos dizem.

Tiago Torégão
Economista
Jornal do Algarve 21.08.2003

 

Jornal do Algarve

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