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Reformo. Não Reformo.

A capacidade demonstrada pela maioria dos portugueses para falar mal sobre tudo e sobre todos e deitar por terra qualquer iniciativa que traga consigo um laivo de mudança, é qualquer coisa que provavelmente merecia ser estudada numa universidade.

Empurrados pela comunicação social, e talvez, reconheço, fruto de alguma falta de habilidade por parte dos governantes na hora de anunciar as medidas ou reformas que pretendem implementar, a maioria dos portugueses não se inibe de fazer logo um comentário pejorativo, chamando todos os nomes possíveis e imaginários aos nossos políticos e dizendo que a culpa é do governo e que o estado é que deveria pagar, e por ai fora.

Sinceramente, este é o tipo de discurso que já começa a cansar, seja ele adoptado por um qualquer partido que se encontre na oposição ou um cidadão comum, por duas ordens de razão, a saber: primeiro porque não é sério; segundo por ser intelectualmente desonesto. Como é possível criticar seja o que for sem primeiro tomar conhecimento real dos dossiers, das medidas em concreto e das consequências positivas e negativas que daí advêm? As típicas frases feitas de que deveria ser o Estado a financiar tudo ou quase tudo, desde a educação à saúde ou à habitação, apenas e só, porque mais de metade daquilo que produzimos vai de forma directa ou indirecta para os seus cofres, denota uma total falta de conhecimento de qual é a realidade do país e do quanto ele necessita urgentemente de reformas. De que serve dizer que o Estado deve financiar ou subsidiar a saúde e a educação, isto apenas como mero exemplo, uma vez que são duas das pastas mais problemáticas em qualquer governo, porque já contribuímos com recursos suficientes e que são fruto do nosso trabalho, se sabemos que este é gerido de forma ineficiente e que o seu peso na economia é em muito superior ao da média europeia? De que serve dizer que os funcionários públicos não deverão ser os únicos a pagar a crise de um país através do congelamento de salários, se sabemos que sessenta por cento do Produto Interno Bruto, ou seja, mais de metade do que Portugal é capaz de produzir em riqueza serve para pagar a esses mesmos funcionários? De que serve dizer que existe uma obsessão relativa à meta dos três por cento do défice da dívida pública, se sabemos que muitos dos portugueses e provavelmente muitos dos que falam, fogem sempre que podem e de forma descarada ao fisco, prejudicando tudo e todos e obrigando o estado a cobrar ainda mais impostos?

O número de exemplos não acaba porque no fundo se trata de uma pescadinha de rabo na boca. Enquanto alguns Velhos do Restelo não compreenderem que o estado somos nós, e que as receitas do estado são fruto do nosso trabalho, e que actualmente a gestão das nossas receitas é feita de forma ineficiente porque temos um Estado que em lugar de ter um papel meramente regulador da economia, à excepção de áreas consideradas vitais, continua a chamar a si a gestão dessas actividades, vamos ter sempre um estado despesista e sem controlo da despesa. O que quero com isto tudo dizer, é que são os mesmos que criticam a forma como o governo tem gerido as contas do estado, e é preciso recordar que apesar de tudo já foi possível conter o crescimento da despesa, que se opõem às mudanças que este se propõem implementar. Seja ao nível da segurança social, seja ao nível da transparência no processo de colocação de professores (uma gota de água no problema estrutural da educação em Portugal), seja ao nível da actualização das rendas dos imóveis. Seja o que for, porque as reformas necessárias são muita e num processo que deveria ser visto sempre do ponto de vista da melhoria contínua e não como algo estanque, todos os sindicalistas e corporativistas estarão sempre do lado da inércia e da manutenção do status quo. A oposição que é feita à mudança, é talvez compreensível por parte de alguns simples cidadãos menos ligados a estas questões, mas é seriamente questionável por parte de alguns sindicalistas que conhecedores da realidade (se bem que muitos são sindicalistas à mais de vinte anos…) deveriam ser os primeiros a estar abertos a essas mudanças, já que o Estado enquanto pessoa de bem não toma medidas de má fé.

Tiago Torégão
Economista
Jornal do Algarve 07.10.2004

Jornal do Algarve

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