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Chover sobre o molhado

A forma como os dirigentes das associações hoteleiras e similares proferem declarações à comunicação social relativas às taxas de ocupação das unidades hoteleiras e ao desenvolvimento da actividade em cada época do ano, denota sempre um tom como que a dizer que a culpa das baixas e decréscimos verificados é sempre de alguém, seja ele o Estado, as condições climatéricas, o terrorismo global ou a valorização do Euro relativamente ao Dólar, tendo estes factores em comum o facto de todos eles não dependerem dos referidos empresários.

A criação de associações empresariais com o objectivo de defender os interesses dos seus associados é de louvar e é comum em democracia, embora a meu ver os seus dirigentes não se devam limitar a defender os seus interesses face a terceiros, mas também face ao comportamento e medidas adoptadas, ou falta delas, por parte dos seus associados. A verdade é que embora a actividade turística dependa de muitos factores sobre os quais é possível fazer muito pouco, como é o caso dos atrás referidos, outros há que só dependem deles mesmos e sobre os quais pouca evolução se tem visto nos últimos anos, nomeadamente através de projectos conjuntos de iniciativa privada, com ou sem o apoio do estado, visando a qualificação do sector.

Embora seja opinião generalizada que a qualidade do serviço tem melhorado bastante nestes últimos anos, muitas são ainda as queixas relativamente ao serviço prestado por muitos restaurantes e sobre a relação preço-qualidade existente no turismo algarvio em geral, nomeadamente face a outros concorrentes da zona mediterrânica e dos chamados destinos tropicais. O problema mais do que identificado da qualificação dos empregados do sector é uma realidade, pese embora o facto de serem muitas as iniciativas de formação e de a Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve, embora enfrentando muitas dificuldades financeiras, todos os anos colocar no mercado pessoal qualificado, subsiste a carência de empregados com a formação necessária, muito por culpa dos empresários que não estão dispostos a pagar os salários justos, sendo cada vez mais visível o número de imigrantes que trabalha no sector, naturalmente pagos com salários mais baixos. Este factor, o custo da mão-de-obra mais baixo, não tem tradução no valor dos preços praticados que são cada vez mais altos e muitas vezes escandalosos.

A actividade turística e os seus problemas naturalmente que não se cingem ao atrás dito, sendo redutor identificar como causa de todos os problemas a falta de qualificação de quem trabalha no turismo. Embora se aceite, mas não se compreenda, que a aposta que foi feita na promoção da região por parte da RTA nos últimos anos não foi a melhor, e que as questões relacionadas com o (des)ordenamento do território prejudicam e muito a imagem da região, não se pode continuar a esperar que tudo dependa dos apoios que o estado dá ao sector, e é necessário que os empresários passem a ter uma atitude mais proactiva relativamente à identificação dos problemas e à implementação de medidas que ajudem a criar um ambiente favorável à procura da região por parte dos turistas nacionais e estrangeiros. Isto não se faz sem uma estratégia conjunta e articulada entre todos os intervenientes que directa ou indirectamente contribuem para a actividade. A imagem da região depende de todos e só com iniciativas conjuntas que permitam valorizar e qualificar o turismo algarvio, fazendo apostas certeiras nos mercados a atingir, dinamizando a oferta cultural e de animação ao longo do ano, complementado o sol, a praia e o golfe com outro tipo de turismo como o de natureza e o relacionado com a actividade desportiva, com tanto potencial, se poderá contribuir para o sucesso do Algarve enquanto destino turístico. Custa por exemplo a compreender, como é possível que até ao momento, os empresários hoteleiros da região, com ou sem o apoio do Estado, não se tenham unido com o objectivo de fazer pelo menos um Centro de Congressos na região, com capacidade para acolher duas ou três mil pessoas, e que viria sem dúvida contribuir para dinamizar um mercado que muito ajuda a minimizar os efeitos da sazonalidade na actividade hoteleira.

O que todos esperamos é que não se discutam mais os problemas, pois estes estão identificados, e que de uma vez por todas os agentes do turismo na região se ponham de acordo relativamente ao que é realmente importante e desenvolvam iniciativas que contribuam para um desenvolvimento qualitativo da actividade, pois já estamos todos um pouco cansados de ver quem tem responsabilidades no sector a chover sobre o molhado.

Tiago Torégão
Economista
Magazine do Algarve - Setembro de 2004

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