O deixa andar...

Quando este artigo for publicado já serão conhecidos os resultados das eleições autárquicas. Independentemente de estes poderem ser ou não da nossa preferência, ou de esse facto nos ser completamente indiferente, de uma coisa podemos ter a certeza - cada vez é maior o alheamento dos cidadãos relativamente à política e aos políticos.

Este comportamento, que penso que já se tornou comum, é sem dúvida reflexo dos políticos e das suas acções, mas também é consequência de uma cultura onde todos nos habituamos primeiro a pensar em nós, e só depois no colectivo, e onde impera a desresponsabilização perante tudo o que é o nosso dever enquanto cidadãos.

Causa-me alguma estranheza que sobre um assunto que diz respeito a todos, a eleição de uma equipa que vai gerir o destino do nosso concelho, bem como um orçamento para o qual todos contribuímos enquanto contribuintes, seja possível que ainda haja quem não se dê ao trabalho sequer de ir votar - nem que seja para votar em branco. Então será que existe coisa mais importante do que contribuirmos para ajudar a escolher a pessoa que irá governar aquilo que é de todos nós?

Há muito pouco tempo dizia o Miguel Sousa Tavares a propósito da situação actual do nosso futebol que o português não gosta de futebol, gosta é de falar sobre futebol. Apetece-me quase dizer que o português não gosta de mais nada senão do seu umbigo e o resto é conversa. Afinal porquê é que passamos a vida a queixar-mo-nos de tudo e mais alguma coisa, se depois os actos de desagrado que temos relativamente ao que se passa à nossa volta não resultam numa mudança de atitude e numa maior participação na vida pública? Porque motivo temos tanta dificuldade em nos unirmos em torno de determinados objectivos que consideramos prioritários para o local onde vivemos? E porquê é que quando consideramos que determinadas situações são injustas não defendemos todos em conjunto os nossos interesses? Este é um conjunto de questões para o qual todos teremos as nossas respostas mas que na minha modesta opinião merecem uma pequena reflexão.

É porque por este andar, qualquer dia, se também não voto também não preciso de pagar impostos e também não preciso de educação nem de serviços de saúde, e por aí fora, simplesmente porque me estou a lixar para tudo e para todos.

Eu sempre ouvi dizer desde os meus tempos de dirigente associativo que quem não faz parte da solução faz parte do problema...

Tiago Torégão
Economista
Notícias do Algarve 17.12.2001

 

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