logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

O Algarve, o descentralismo e a competitividade

Apesar de todos os erros cometidos desde os anos 60 no Algarve em matéria de urbanismo e ordenamento do território, do contínuo apetite voraz dos empresários da construção civil e do ramo hoteleiro, da falta de coragem política dos autarcas para dinamizar os seus concelhos de uma forma sustentável e que não comprometa o futuro dos que nos hão de proceder, a nossa região continua a oferecer condições competitivas excelentes, nomeadamente no que respeita à actividade turística. No entanto, a identificação deste factor competitivo, e de outros, de nada nos serve se não forem tomadas as medidas correctas no sentido de tirarmos proveito das condições privilegiadas que temos nesta matéria. A identificação dos factores de competitividade da região algarvia, a prioritização e definição de metas a nível regional deveria ser uma reivindicação de todos quantos gostam do Algarve.

O discurso sobre a qualidade do turismo na região esta gasto e parece que caiu em saco roto, atendendo ao facto de não termos na região, e talvez nem fora dela, ninguém que nos represente como um todo e que faça perceber a todos que aqui habitam para onde caminhamos - o discurso podia ser o mesmo sobre uma outra actividade económica qualquer. A proliferação de orgãos desconcentrados do estado, organismos e institutos públicos com competência em matérias predominantemente turísticas (esta é uma actividade transversal na economia) e nem sempre localizadas na região, ou pelo menos, sem qualquer capacidade de decisão sobre o financiamento público da actividade, ou no apoio à iniciativa privada são elementos que retiram de forma muito substancial competitividade ao nosso Algarve.

Não queria aqui falar de regionalização, uma vez que este tem sido um assunto que foi mal conduzido e que já levou a que este fosse um nome associado a algo de perjurativo. É por isso melhor falar de descentralização, ou pelo menos de alguma autonomia regional em matérias que dizem respeito ao Algarve, e sobre as quais somos os cidadãos mais qualificados para falar e para decidir. A verdade é que todos os dias perdemos bons e maus investidores para outras regiões, dentro e fora do país, só pelo simples facto de quase ninguém na região ter capacidade de decisão, e pelo facto de a legislação que temos ser na maior parte das vezes mais um entrave ao desenvolvimento, do que um forma de regular o mercado e de evitar que se cometam os mesmos erros do passado.

Não sou da opinião que aquilo que os outros têm para oferecer é que é sempre melhor, antes pelo contrário, mas a verdade é que deveríamos aprender com os nossos vizinhos espanhóis alguma coisa em assuntos relacionados com a forma como é conduzida a política regional e quais os melhores instrumentos a implementar, por forma a pudermos competir com regiões como Andaluzia, isto para não irmos mais longe. É verdade que em muitos aspectos relacionados com a qualidade do serviço e da oferta turística da região estamos alguns anos à frente de muitos dos principais concorrentes da nossa região, mas se não tivermos a visão de antecipar os problemas com que nos iremos deparar num futuro próximo podemos ter de vir a chegar à conclusão que é tarde de mais. Como diz o ditado popular "O pão de hoje é a fome de amanhã".

Num período em que se discute na Assembleia da República a reforma do sistema político seria bom que pessoas com responsabilidades na região promovessem o debate público, aprofundando questões como estas e motivando desta forma as pessoas para participarem de forma mais activa na vida política da região. Para quando uma manifestação em frente ao Governo Civil pelo Algarve?

Tiago Torégão
Economista
Jornal do Algarve 17.04.2003

 

Jornal do Algarve

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