logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Campeonato da Europa 2006

A afirmação do Exmo. Sr. Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, proferida na passada semana, de que os portugueses olham para a União Europeia como uma mera fonte de financiamento devia deixar-nos preocupados e levar a alguma reflexão, não só porque o financiamento é apenas um instrumento importante, de entre muitos outros, no sentido da convergência entre os diferentes estádios de desenvolvimento dos países que a constituem, mas também porque nem sempre o destino que é dado a estes ou a forma como são geridos é a melhor.

Embora seja um dado adquirido que a entrada de Portugal no comboio da União Europeia era inevitável, já não fica tão claro de que forma está Portugal a desenvolver políticas que desenvolvam uma consciência verdadeiramente europeia em todos os portugueses. Já é altura de todos termos uma ideia do que é ser um cidadão da Europa, mesmo sabendo que porventura esse seja um exercício de difícil execução, face a um conjunto de atrasos estruturais e de reformas que tardam em aparecer, e que ainda nos deixam a anos luz da média comunitária em muitos aspectos, embora seja de louvar o esforço e os resultados que o actual governo tem desenvolvido e atingido, respectivamente.

Preocupa-me o facto de que possa apenas existir uma perspectiva materialista da União Europeia, mas preocupa-me ainda mais que a forma como estamos a utilizar os fundos estruturais possa não estar a ser a melhor. À lógica de que é necessário inventar projectos porque existe financiamento disponível, tem de se sobrepor uma mentalidade e cultura de inovação na criação de projectos que sejam realmente estruturantes, capazes de criar novas dinâmicas, de desenvolver hábitos de trabalho mais orientados para resultados, e uma cultura organizacional mais competitiva e saudável. Salvo as devidas excepções, aquilo que se testemunha muitas vezes nos dias que correm, são projectos financiados pela União Europeia que apenas servem para manter as estruturas de inúmeras associações sobredimensionadas, que pouco de inovador trazem, que não são sustentáveis, e a que muitos parceiros aderem por forma a puderem também eles incluir despesas de funcionamento. Enquanto não se compreender a importância de desenvolver planos de médio e longo prazo em cada organização, com objectivos e estratégias bastante claros, temo que cada projecto financiado pela União Europeia e pelo Estado Português não seja mais do que um fim em si mesmo, e que muitos dos recursos que tivemos e temos ainda disponíveis tenham sido mal aplicados, ou que deles não tenham surgido os resultados que seriam desejáveis caso o envolvimento de todos tivesse sido mais sincero e objectivo.

Nesta matéria é incontornável a comparação com os nossos vizinhos espanhóis, que souberam mais rapidamente do que nós, entender que a oportunidade que a adesão à União Europeia nos deu e o acesso a fundos estruturais constitui uma oportunidade única. Os nuestros hermanos não se poupam em esforços na hora de lutar para que as candidaturas que apresentam sejam aprovadas, tendo um lobby fortíssimo ao nível das tomadas de decisão sobre a aprovação das mesmas, mostrando um dinamismo, capacidade de organização, execução e envolvimento de todos os parceiros, em média muito superior à nossa, pelo menos naquilo que me tem sido dada a oportunidade de assistir.

Não gosto naturalmente de falar mal dos portugueses, nem acredito que sejamos menos capazes do que outros povos, mas existe algo na nossa natureza derrotista que é necessário corrigir, com estratégias vencedoras e ferramentas de gestão adequadas, capazes de fazer elevar a nossa auto estima, que parece teimar em andar pelos escalões inferiores do campeonato europeu que termina em 2006 com o fim do QCA III.

Tiago Torégão
Economista
Jornal do Algarve 16.10.2003

 

Jornal do Algarve

Comentar este artigo           Imprimir Imprimir

Voltar à Página de Tiago Torégão