logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Dos factos reza a história

É um facto que o Portugal dos dias de hoje está na cauda da Europa no que diz respeito a um conjunto de indicadores que permitem avaliar-nos e comparar-nos com os restantes membros dos 15. Não temos sabido fazer as reformas estruturais que nos permitam efectuar um crescimento acima da média comunitária e que nos possibilite reduzir o gap que nos separa dos restantes parceiros numa geração. Cálculos efectuados por alguns dos melhores economistas portugueses revelam que se tivéssemos mantido o crescimento verificado durante o período 1985-1994 levaríamos 13,6 anos a reduzir a distância que nos afasta da média da União Europeia. No entanto, este crescimento sofreu uma importante redução no período que vai entre 1994-2006 (média observada e projectada) deixando-nos a uma distância que varia entre os 42 e os 52 anos. Este é concerteza um facto que nos devia deixar preocupados.

Durante os últimos anos não se efectuou nenhuma reforma estrutural em nenhuma das áreas consideradas chave, como por exemplo ao nível fiscal, na saúde, na justiça, na educação e na função pública. Estas reformas são consideradas fundamentais por personalidades dos mais variados quadrantes políticos, e mesmo algumas das soluções apresentadas não colocam barreiras de fundo entre estes, e que dessa forma possam inviabilizar a concretização das mesmas. Se é certo que, por um lado, e durante os últimos anos, faltou determinação ao governo e capacidade de decisão para pôr em curso essas reformas, por outro, quando se verifica que existe por parte do estado a determinação para reformar, logo aparecem os defensores dos interesses privados a oporem-se a tudo aquilo que possa alterar o status quo.

É ponto assente que não existem reformas perfeitas, e que em qualquer dos cenários reformistas encontrados uns sairão a ganhar e outros terão de abdicar de qualquer coisa. Mas não há nenhuma reforma que tenha como objectivo acentuar as desigualdades sociais, nem travar o desenvolvimento económico do país. Isso era dizer que o governo está de má fé de cada vez que pensa em reformar. Os interesses do país devem estar à frente de todos os outros, e o governo quando colocado entre políticas pouco populares mas fundamentais para o seu desenvolvimento, e a inércia que fomenta o garante dos interesses instalados, não deve logicamente hesitar e escolher a primeira. Penso que o actual governo está por isso de parabéns a medir pela quantidade de manifestações que têm saído a público contra as reformas que este pretende fazer.

Apesar de tudo, é minha opinião que nem tudo vai bem. É necessário ainda a este governo, efectuar um esforço no sentido de clarificar melhor quais as metas que pretende atingir com as políticas que pretende implementar (nem só de indicadores económicos vive o país), uma vez que de outra forma não puderá exigir à sua população que se façam determinados sacrifícios. Em termos estratégicos não foram até ao momento definidas estratégias claras em algumas áreas. Ao nível da economia, por exemplo, não existe uma aposta clara quanto à especialização da indústria, além de que a pouca que existe é feita em industrias de baixa dinâmica da procura e trabalho intensivo com pouco conteúdo tecnológico, em oposição a uma especialização em sectores com uma forte dinâmica de procura, elevado conteúdo de tecnologia e perspectivas de progresso tecnológico. Este facto coloca-nos em clara desvantagem perante os países que irão aderir à UE em 2004 e 2006, com índices de desenvolvimento mais parecidos com os nossos, o que não deixará de representar um desvio do comércio transaccionado para Leste.

Por outro lado, as estratégias a prosseguir devem ser concertadas e garante de que qualquer que seja o caminho a percorrer todos os barcos irão ancorar no mesmo sítio e no mesmo lado da margem. Isto para dizer, que o investimento na qualificação e na formação deve estar a par do investimento em sectores estratégicos da economia, sem descurar a inovação tecnológica, procurando adaptar as necessidades da procura do mercado de emprego à qualidade da oferta.

Uma última palavra para a Justiça em Portugal. Não é possível a nenhum país encontrar condições para crescer e se desenvolver sem que haja confiança. Por um lado ter um governo que promete, decide e cumpre, por outro, não haver um clima de impunidade perante a lei e haver um estado que comece por dar o exemplo.

Haja coragem e determinação a este governo para alterar o estado das coisas. É urgente colocar este país no rumo certo - no rumo dos vencedores - e devolver ao país a auto-estima e o orgulho.

Tiago Torégão
Economista
Jornal do Algarve 16.01.2003

 

Jornal do Algarve

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