Já não há coragem política

No final da semana passada, foi dado a conhecer através do PÚBLICO um estudo realizado por gestores estrangeiros a trabalhar em Portugal, e que definia os seus colegas portugueses com alguns atributos pouco elogiosos. No referido trabalho pode ler-se sobre os gestores lusitanos o seguinte: "São autocratas e não gostam de trabalhar em equipa, não planeiam o seu trabalho, têm falta de visão estratégica, não se dedicam em prestar ao cliente um serviço de excelência, são muito formais e obcecados por títulos académicos". Este é apenas um de entre um conjunto de aspectos mais negativos que são apresentados como conclusão. No entanto, o estudo não fica apenas pelo identificar dos problemas e apresenta algumas soluções, como por exemplo, a necessidade de "Uma profunda reforma do sistema de educação na área da gestão; escolas de negócios mais competitivas com as suas congéneres europeias, e, empresas e associações empresariais com um novo espírito de liderança e de associativismo, pondo assim fim às clivagens regionais".

As duas conclusões aqui apresentadas de forma muito sucinta, são com toda a certeza bastante discutíveis, mas do meu ponto de vista bastante pertinentes. A primeira põe em cheque a capacidade de trabalho e de organização dos gestores portugueses. A segunda põe em causa o sistema educativo e que serve de base aos primeiros, e questiona o papel das associações empresariais a nível regional enquanto impulsionadores da inovação ao nível da gestão.

Apesar de não ser da opinião de que tudo o que vem do estrangeiro é que é bom, penso que a análise feita pelas duas entidades responsáveis pela coordenação do estudo (Ad Capita International Research e Escola de Gestão da Universidade de Cranfield) é bastante acertada. O referido estudo não descreve se os gestores em causa são funcionários públicos ou não, mas é em relação a estes que penso que as conclusões fazem mais sentido. Muitos dos orgãos desconcentrados do estado têm servido nos últimos anos, e sempre que há eleições, e com a justificação de que são cargos de confiança política, para dar guarida a boys dos partidos políticos que estão no poder. O princípio da confiança política não implica logicamente que os gestores ou directores em causa sejam competentes ou as pessoas mais indicadas para conduzir os destinos dessas instituições. Penso que é urgente corrigir isto e acabar com o despesismo público a que estas entidades parecem estar erradamente votadas.

Quanto à segunda conclusão, e para todos aqueles que já frequentaram um estabelecimento de ensino, seja ele superior ou uma escola técnico-profissional, é notório o distanciamento entre as empresas e as universidades. Do meu ponto de vista muito pouco tem sido feito para aproximar os níveis de ensino da realidade empresarial, e por mais fácil que seja criticar e apontar o sistema de ensino português como sendo o responsável por todos os males, é também verdade que as associações empresariais podiam desempenhar aqui um papel muito maior, e com certeza mais relevante, do que arranjar financiamentos através de projectos comunitários para continuarem a existir. Haja vontade política.

Tiago Torégão
Economista
Notícias do Algarve 13.05.2002

 

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