logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Algumas ideias para o Comércio Tradicional

O que vos escrevo nestas linhas não é novidade para ninguém. O comércio tradicional vive uma profunda crise no Algarve. As grandes superfícies são uma realidade incontornável e há todo um conjunto de novos conceitos associados à nova economia que vieram para ficar e para vencer (e-business, globalização). Não vale a pena por isso chorar sobre o leite derramado. É verdade que muitos dos nossos autarcas não souberam defender os pequenos comerciantes, e permitiram que hipermercados e centros comerciais aqui se instalassem numa proporção exagerada tendo em conta o numero de habitantes que a nossa região tem. Mas sobre todos aqueles que já foram construídos e se encontram em plena actividade já nada há a fazer, senão aprender com a sua organização, profissionalismo e capacidade de captação de novos clientes.

A verdade é que o comércio tradicional tem de "crescer" e deixar de se lamentar por todos os infortúnios desta vida e pela falta de apoio por parte das autarquias, que nem sempre são responsáveis por todos os males. Os centros comercias são espaços agradáveis e que apresentam um conjunto grande de vantagens para os cidadãos que neles encontram uma grande variedade de oferta de produtos, espaço para estacionar e locais de animação para miúdos e graúdos. Não há por isso como combater aquilo que representam estes grandes grupos económicos senão com as mesmas armas.

O conceito de Centro Comercial a Céu Aberto (CCA) esta longe de ser uma novidade. Existem publicações, estudo e casos práticos por essa Europa fora que são, só por si, suficientes para que deixem de haver desculpas. Os números não deixam mentir, e aqueles que são mais atentos a estas questões já repararam, com certeza, na quantidade de pequenos estabelecimentos comerciais que têm fechado as suas portas pelo facto de não puderem combater sozinhos com estas grandes superfícies, nomeadamente aqueles que se encontram um pouco afastados da zona nobre da cidade. É certo que as dificuldades que se lhes apresentam são muitas, desde a falta de estacionamento, ao facto de estas serem zonas bastante antigas e afastadas das novas zonas habitacionais onde se instalam os jovens casais e todos os potenciais clientes com capacidade de compra.

Das inúmeras definições que existem sobre o conceito de CCA penso que há uma que caracteriza bem aquilo que se pretende com a criação deste tipo de espaço e que encontrei num estudo feito em português por um centro de investigação da Universidade do Algarve (reparem que fica aqui bem pertinho): "os CCA caracterizam-se pela sua especificidade e capacidade de atracção: oferta diversificada e adaptada às necessidades em constante mudança da procura, prestação de serviços conjuntos, imagem comum, promoção e comunicação contínua entre outros aspectos, coisa unicamente possível com uma gestão comercial que garanta o funcionamento da zona como um só negócio, no qual cada comerciante se vê implicado no projecto comum e ao mesmo tempo conserva a sua independência". No fundo tudo aquilo que caracteriza os centros comerciais em espaço fechado.

Existem, hoje em dia, formas jurídicas para criação de empresas de capitais públicos e privados que têm como missão desenvolver e dinamizar a actividade de espaços com as características muito próprias do comércio tradicional, na qual comerciantes e autarquia têm como objectivo animar estas zonas tradicionalmente muito ricas, quer historicamente, quer arquitectonicamente, colocando em prática políticas comuns de animação e promoção e com preocupações ao nível da segurança, higiene e estacionamento.

Não acredito que haja algum autarca que não seja sensível a esta problemática e que não sinta vontade de tudo fazer para criar condições para revitalizar o comercio tradicional, tal como não acredito que se os comerciantes e pequenos empresários não abandonarem o seu espírito individualista possam alguma vez vencer nesta selva da globalização.

Tiago Torégão
Economista
Jornal do Algarve 12.09.2002

 

Jornal do Algarve

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