O pão de hoje é a fome de amanhã

No próximo dia 17 de Março terão lugar as eleições legislativas que irão eleger os governantes do país para os próximos 4 anos. Os dias de campanha eleitoral deveriam por isso ser momentos de esclarecimento das populações sobre quais as medidas que se pensa implementar para resolver os problemas de todos nós. Desde a economia e a saúde, passando pela educação e justiça, modernização da função pública e descentralização dos poderes do estado, muito haveria por dizer e por discutir. Em lugar disso, e em função do papel cada vez maior que o marketing tem nas campanhas eleitorais, apenas temos tido a oportunidade de conhecer ideias soltas, medidas inócuas e muita demagogia.

A esta situação já de si triste e representativa do respeito que os políticos portugueses têm pelos cidadãos, acresce o facto de se ter concentrado a discussão em torno do Euro 2004 e do já famoso Estádio das Antas. Como se o mundo girasse à volta do futebol e depois da maravilhosa organização do Europeu de Futebol, que não tenho dúvidas que vai acontecer, todos os nossos problemas ficassem resolvidos. Para um dos países mais pobres da União Europeia penso que não vamos nada mal em matéria de prioridades...

A nível regional pouco ou nada se tem ouvido falar. A população que já de si parece viver bastante alheada das questões relacionadas com a política, na sua maioria não conhece os deputados candidatos ao parlamento nem quais são as suas ideias para o distrito. O Algarve não tem um interlocutor privilegiado na região, que defenda os seus interesses a uma voz, e que reivindique para todos a resolução dos principais problemas com que em pleno século XXI ainda nos deparamos. Continuamos virados para o litoral, apesar de alguns esforços, poucos, que têm sido feitos e votando o interior algarvio ao esquecimento e à pobreza. A rede de saneamento básico esta por concluir, as acessibilidades são na sua generalidade más, o sistema de saúde funciona mal, a indústria pesqueira, da conserva de peixe e a relacionada com a cortiça e seus derivados, e que chegou a ser dos principais contributos do Algarve para o PIB nacional encontra-se moribunda, se não é que já foi enterrada viva.

Por agora vamos contentando-nos com os rendimentos das actividades relacionadas com o turismo, que por este andar e com a desarticulação que existe entre o sector público e privado nunca chegará a ser de excelência, e dos serviços, que não sua maioria dependem da primeira, o que no médio/longo prazo é preocupante e nos torna demasiado dependentes de uma actividade. O ditado popular já dizia que o pão de hoje é a fome de amanhã.

Tiago Torégão
Economista
Notícias do Algarve 11.03.2002

 

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