Maus Hábitos

De há muito tempo a esta parte que é frequente ouvir os nossos políticos e responsáveis por algumas das maiores empresas deste país, discursar sobre a necessidade de o nosso país aumentar os níveis de produtividade. Esta é sem dúvida uma questão central para um país que necessita de aproximar os seus níveis de desenvolvimento da média europeia. Em termos económicos são vários os prognósticos e estimativas que quase semanalmente são atirados cá para fora e que nos dizem que estamos a uma distância de 7 ou de 10 anos, ou mesmo de 12, em função dos níveis de optimismo ou de pessimismo que cada um dos analistas tem, da média europeia. No entanto estas análises apenas abordam o assunto de uma perspectiva económica, feita com base em indicadores económicos, o que faz todo o sentido, uma vez que é apenas com base nestes indicadores objectivos que se pode fazer um estudo rigoroso e científico.

Haverá no entanto um conjunto de outras variáveis mais subjectivas que mereciam a pena ser analisadas e que têm a ver com os hábitos e a cultura de um povo. Os maus hábitos são porventura mais visíveis em questões de pormenor mas, penso eu, são também demonstrativos da atitude e da seriedade que por norma temos perante os problemas, métodos de trabalho, rigor e profissionalismo. Sem que seja necessário fazer uma análise exaustiva sobre muitos dos comportamentos com que nos deparámos no nosso dia a dia de trabalho, é possível identificar um sem número de horas que são despendidos sem que haja o mínimo de eficiência ou de resultados. Ora vejamos: quantas vezes as reuniões que marcamos para ter início a uma determinada hora começam na altura própria? E quantas vezes se chega a uma reunião sem saber muito bem a ordem de trabalhos, quais os assuntos que é necessário dominar ou mesmo com os documentos sobre os quais se vão desenrolar os trabalhos lidos?

Não sou de certeza nenhum bastião do profissionalismo, mas faz-me confusão o número de horas que se perdem numa semana em reuniões de trabalho sem que destas resultem decisões tomadas, responsabilidades assumidas e prazos de execução de tarefas definidos. Chega a ser incrível o numero de decisões que são adiadas para um outro encontro só porque não se teve o cuidado de analisar os assuntos em discussão ou porque a pessoa que se fez representar não tem capacidade de decisão. Estes são sem dúvida momentos de uma frustração completa e de uma produtividade nula.

Por outro lado vale a pena analisarmos o conjunto de tarefas rotineiras e de processos que desenvolvemos e sobre os quais nunca parámos para pensar. Estas tarefas são por norma feitas da forma que nos foram ensinadas, sem que muitas vezes estas se desenrolem da maneira mais eficaz ou objectiva. É minha experiência pessoal que um exercício de sistematização de tarefas feita em conjunto com os colaboradores resulta numa inovação e simplificação de processos, desburocratização e ganhos de produtividade.

A verdade é que os maus hábitos são mais que muitos, o caos do dia a dia resultante de um sem número de problemas e a dificuldade em sistematizar tarefas e definir prioridades, o facto de os planos serem por natureza esquecidos dentro das gavetas, nos levam a que por norma passemos a vida a resolver os problemas do passado e a desenvolver o nosso trabalho sem que haja uma estratégia claramente definida. Todos estes factores somados ao fim de um ano de trabalho, comprometem concerteza, o atingir dos resultados planeados e resultam em perdas preciosas de produtividade.

Em resumo, é minha opinião que enquanto os bons exemplos não começarem a vir de cima, que é como quem diz de quem lidera as organizações, e não houver uma mudança de atitude mais focada na resolução de problemas e obstinada pelo rigor, profissionalismo, atingir dos resultados, e não for dada uma primazia à qualidade, levaremos concerteza muitos mais anos a atingir o nível de vida dos nossos parceiros europeus.

Tiago Torégão
Economista
Notícias do Algarve 11.02.2002

 

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