Fazer a mudança

Há bem pouco tempo neste país viveu-se um fenómeno deveras surpreendente, a mobilização de todos os cidadãos em torno de uma causa. A causa Timorense. Devo começar por dizer que nada tenho contra e inclusivamente enquanto dirigente nacional, na altura, de uma associação estudantil, cheguei inclusivamente a participar em reuniões de trabalho, juntamente com outras associações, no sentido de concertar esforços e de garantir, que a dimensão do movimento nacional faria eco por esse mundo fora. Apesar de Timor pouco me dizer, pelo facto de este ser um povo que se encontra distante e do qual nada conhecia, mesmo sabendo das ligações históricas que nos unem, foi uma causa que abracei e em que tentei na medida das minhas possibilidades dar um contributo.

Quando olho para atrás e procuro analisar os factores de sucesso desta iniciativa, fica claro para mim, que o principal dentro desse conjunto de factores foi o facto de ter havido uma liderança muito forte no processo e de esta ter tido impacto em todos os sectores da sociedade, nomeadamente entre a camada mais jovem, que soube como ninguém responder ao apelo que era feito.

Da leitura deste processo, fica claro também, se dúvidas havia, que esta é uma sociedade que se sabe organizar e lutar por uma causa em que acredita. Mas se assim é, por que será que outras causas igualmente importantes e que nos dizem de uma forma mais directa respeito, nomeadamente a educação, a saúde, a reforma da administração pública, as acessibilidades, o aumento da produtividade, entre muitas mais, não têm sido capazes de fazer mobilizar este país? Não quero tratar estes problemas estruturais do país de uma forma leviana, mas a verdade é que as paixões são passageiras, não é líder de uma causa quem quer, e os valores eleitoralistas não se compadecem com a coragem de prestar um serviço ao país, pois já sabemos que isso poderá custar uma derrota nas eleições que se seguem. Será que os políticos já andam à tanto tempo na Terra que se esqueceram do porque da sua existência, ou seja o de prestar um serviço aos cidadãos, com o objectivo de melhorar as suas condições de vida? Ultimamente, salvo devidas excepções, tenho sido levado a pensar que sim.

Enquanto Algarvio e Farense vivo preocupado com o meu futuro e o dos filhos e netos que um dia hei de ter. Na verdade aquilo que mais me aflige, é a falta de líderes políticos desinteressados de valores mais materiais e com capacidade de apresentar de uma forma simples e clara qual a sua visão para o país/região/concelho. Que tipo de país queremos ser daqui a dez anos? Quais os objectivos que perseguimos? Que estratégias vamos usar? Que sectores temos de desenvolver? Existe outra forma de nos desenvolvermos e de concertarmos esforços que não esta? Haverá melhor forma de avaliar o trabalho de um político ao fim do seu mandato do que medir os resultados atingidos em função dos objectivos delineados?

Numa altura em que se avizinham as eleições autárquicas, espero sinceramente que Faro tenha uma oportunidade, com a apresentação da candidatura de um líder com uma visão para a cidade, que seja carismático, com capacidade de mobilização e de empreender os melhores projectos para a cidade. Um político que nos apresente soluções para os problemas de falta de infra-estruturas desportivas acessíveis a todos, com problemas de acessibilidades, de falta de espaços verdes, de ordenamento do território, de exclusão social da minoria de emigrantes que nos invadem os bancos de rua todas as noites, procurando um espaço para dormir.

A verdadeira política faz-se nas autarquias, procurando soluções para os problemas que as populações sentem no dia a dia. Por este mundo fora, são vários os bons exemplos que temos de como através de um bom planeamento, de uma execução rigorosa e de uma liderança forte, capaz de dar vida e dinamizar essa mesma cidade, é possível por em prática uma visão que seja capaz de nos orgulhar a todos do sítio que escolhemos para viver. Nada se faz sem o contributo de todos. A execução de projectos dinâmicos e com objectivos claros, é com toda a certeza, uma das formas de renovar-mos a nossa classe política e de a credebilizarmos, fazendo com que todos contribuam "dessinteressadamente" para o desenvolvimento das suas regiões e naturalmente do país.

Tiago Torégão
Economista
Diário do Sul - Edição Algarve 03.07.2001

 

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