logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Algarve Total

Quando se fala do Algarve pudemos ficar com a ideia, de forma muito resumida, de esta ser uma região homogénea, com o seu espaço territorial claramente definido, que funciona a uma só voz e que vive essencialmente da actividade turística decorrente da oferta hoteleira existente e das excelentes condições naturais que possui. Por razões de ordem histórica, desde o Reino dos Algarves, que o seu espaço territorial se encontra claramente definido e não deixa margem para dúvidas. É igualmente comum ouvir dizer que tal fulano é do Algarve, independentemente de este ser de Lagos, Faro ou Tavira.

Apesar de não ter nascido no Algarve, aqui vivo desde que me lembro e é com orgulho que me considero algarvio e que defendo a minha região. Mas defender a minha região é também reconhecer que esta está longe de ser perfeita. Falar do Algarve é falar das belas praias, das bonitas paisagens, do verão e da vida nocturna animada, da rica e vasta gastronomia. Estes são talvez os elementos caracterizadores de que mais depressa nos recordamos quando nos pedem para descrever a nossa região, talvez por esta ser a parte mais visível e exposta. No entanto, falar do Algarve, é também falar de desordenamento do território, da EN 125 como uma das estradas mais perigosas do país e da falta de acessibilidades de maneira geral, de algum mau serviço que ainda existe ao nível da oferta turística, de um interior pobre e cada vez mais despovoado, em oposição a um litoral mais cosmopolita e desenvolvido, da falta de equipamentos culturais dignos desse nome, do subdimensionamento das suas infra-estruturas por alturas do verão.

Do atrás exposto fica portanto a ideia, de que existem dois Algarves, ou pelo menos, um Algarve a duas velocidades. Bem vistas as coisas, e resultante da actual divisão administrativa do território, e enquanto não se decide se passamos a ser uma grande área metropolitana ou duas ou três comunidades urbanas, não somos mais do que uma soma de concelhos que a maior parte das vezes vive de costas voltadas. A falta de estratégias comuns ao nível do planeamento e gestão do território representa, na maior parte das vezes, que estamos longe de optimizar os nossos recursos, para além de que muitas vezes só serve para aprofundar ainda mais o fosso que existe entre concelhos vizinhos. É sabido que existem claras excepções e que, por exemplo, ao nível dos recursos hídricos e tratamento de resíduos sólidos existem políticas comuns e concertadas. Mas o mesmo já não é falar das estratégias de marketing turístico, do facto de todos os concelhos reivindicarem, ou possuírem uma piscina municipal ou um hospital, só para citar alguns exemplos. Investimentos de natureza completamente diferente, mas que demonstram que nem sempre existe uma política e visão integrada sobre a região, para não falarmos em falta de coerência e pouca honestidade intelectual, quando se realizam ou prometem obras públicas.

Pudemos sempre falar de descentralização, regionalização ou autonomia regional - fica sempre bem - que a verdade é que hoje em dia uma região que tem tudo para ser das melhores do mundo no que diz respeito à qualidade de vida, é uma região dividida, com muitas assimetrias, com pouca investimento público proveniente do poder central, apesar do grande contributo que damos ao país resultante da actividade turística e com um peso significativo no PIB nacional. Para quando um Algarve homogéneo a uma só voz e com uma política de financiamento e investimento público mais justa (as receitas provenientes do turismo são porventura suficientes) e uma gestão integrada do território? Para quando um Algarve Total?

Tiago Torégão
Economista
Magazine do Algarve - Setembro de 2003

 

Magazine do Algarve

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