Dinâmicas cruzadas …
Costumo coleccionar recortes da imprensa que vou lendo. Aos poucos, acumulam-se artigos com incidência regional ou nacional que merecem ser relidos e utilizados enquanto referência. Pontualmente, pego na pilha de recortes e tento dar-lhes uma lógica de organização. Foi num destes processos de arrumação, que o acaso me fez juntar dois artigos que, desfasados no tempo e no conteúdo, me fizeram reflectir sobre os contrastes que caracterizam a leitura das dinâmicas da nossa região.
Por um lado tinha um artigo que enaltecia a perspectiva do aumento em mais de 230% do número de hotéis de 5 estrelas no Algarve. Assinalava-se a importância destes investimentos para a requalificação da oferta regional e dava-se relevo à importância estratégica de se fixarem na região marcas âncora de referência internacional. Por outro lado, tinha um artigo que abordava a perspectiva de investimento na região por parte de grandes superfícies comerciais e a defesa do comércio tradicional. Sobre estes empreendimentos, recaía o odioso da região, sendo comparados a verdadeiros "vampiros" que sugam os fluxos financeiros da região para fora do país (por via das grandes cadeias internacionais).
O que poderá permitir abordagens tão contrastantes?
Seria possível imaginar que os herdeiros do Sr. Joaquim e da Dona Gertrudes (simpáticos e empenhados proprietários da pensão de 3 estrelas que há 30 anos me acolhia no centro histórico de Lagos durante as minhas férias), apresentassem uma Providencia Cautelar contra um dos 5 "Resorts" previstos para o concelho, em nome da concorrência desleal? Seria normal, solicitar a um destes hotéis como contrapartida da sua implantação, verbas para a transformação da decadente pensão num espaço de nível superior? Custeando obras tão simples como o alargamento dos quartos de 6 para 15m2 e a inclusão de casas de banho em cada quarto, substituindo a tipologia de estrutura colectiva no final do corredor, em voga nos inícios dos anos 70? Penso que não.
De facto, o sector turístico e a região, entendem que a fixação deste tipo de equipamentos é um factor complementar de qualificação da oferta, capaz de afirmar a imagem e a capacidade completiva da região. A qualificação da oferta nos segmentos altos é factor de atracção para o Algarve de fluxos de procura, que geram impactos no emprego, na qualidade dos serviços prestados e receitas directas e indirectas repercutiveis por todos os sectores de actividades. Cabe assim, a cada um dos segmentos da oferta, encontrar os melhores mecanismos para captar o seu público-alvo e garantir as transformações necessárias de modo a aumentar a qualidade dos serviços prestados, adequando-os às expectativas da procura e aos padrões de conforto dos nossos dias.
Com as devidas proporções, julgo que as denominadas "grandes superfícies comerciais" poderão funcionar no panorama regional como um complemento para a oferta disponível, capaz de atrair à região fluxos com capacidade aquisitiva e com impactos directos e indirectos noutros segmentos do comércio. Assim, saiba o comércio de proximidade encontrar os argumentos, a flexibilidade de horários e os mecanismos indispensáveis (estacionamento adequado, personalização do atendimento, presença na web, especialização do produto, etc.) capazes de satisfazer as expectativas do seu público-alvo e responder aos novos ritmos de vida característicos de uma sociedade de consumo global.
Como consumidor convicto, a atento ao que se passa lá fora (nomeadamente na nossa vizinha Espanha), vejo no alargamento do leque de opções de escolha e no incremento da qualidade da oferta, factores complementares e imprescindíveis para o desenvolvimento e competitividade da região. Mas este desenvolvimento só será real, se o "coração das cidades" se mantiver vivo, funcional e dinâmico e nesse objectivo o empreendedorismo do comércio de proximidade tem um papel determinante.
António Ramos
Mestre em Geografia e Planeamento Regional
Jornal "Região-Sul" 03.05.2006
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