Carta Aberta à Minha Professora da Escola Primária
Senhora Professora Noémia, mesmo que tenham passado alguns anos sobre o tempo em que frequentei a escola primária, gostava que soubesse que me recordo perfeitamente de si. Honestamente, devo-lhe confessar também que recentemente esse conjunto de recordações suas e da Escola Primária do Bairro Pontal nº 2 em Portimão, onde me deu aulas no período compreendido entre 1981 e 1984, têm estado cada vez mais presentes face ao que se está a passar na área do ensino.
Sabe Professora Noémia, eu, embora saudosista de tudo aquilo que a vida teve de bom no passado (creio que neste aspecto serei igual a muitos outros), não me revejo muito na ânsia de afirmar que tudo o que havia antigamente era bom ao contrário de hoje. Todavia, face ao que tenho lido e ouvido através dos órgãos de comunicação social, não consigo de deixar de fazer uma comparação entre o respeito que nós, os alunos, tínhamos pela figura do professor nessa altura e a falta de consideração que muitos jovens hoje têm por quem lhes ensina algo importante para a sua própria vida.
Antes de mesmo de aprofundar esta questão, como não quero ser injusto nem ofender quem quer que seja, misturando o bom e o mau, impõe-se um esclarecimento adicional, isto é, as próximas linhas só servem mesmo para quem se porta mal. Mas passemos ao assunto em concreto…
Há uns tempos atrás, foi exibida na RTP 1 uma reportagem com autoria da jornalista Mafalda Gameiro. Durante alguns longos minutos foram expostas imagens captadas em sala de aula, feitas com a concordância de professores e do conselho directivo. Através destas, todos os portugueses ficaram chocados com os níveis de indisciplina completamente impensáveis seja naquela ou em qualquer outra escola do nosso país.
Mas a história não termina aqui. Qual não foi o meu espanto quando, em vez de serem punidos os alunos em causa e, desta forma, censurados os seus actos, o Ministério da Educação preferiu ignorar tais desventuras e decidiu protestar face à eventual suspeita de violação do direito à imagem dos alunos filmados.
Ora, Senhora Professora, acha mesmo que perante tamanhas barbaridades que todos assistimos (estima-se que esta reportagem foi vista por um milhão de pessoas), a primeira prioridade seria defender esses alunos? E quantos casos similares não existirão por esse país e que ficam/ficaram abafados pela vergonha ou pelo pudor dos ofendidos? E os agressores continuarão impunes como quase sempre? E os professores continuarão a ficar desamparados e sós?
Sabe, eu não costumo estar muito de acordo com os sindicatos quando estes apenas têm uma vista curta sobre a sua classe e ignoram tudo o resto. Todavia, desta vez, creio que têm razão em pedir explicações seja a este ou a outros governos quanto à falta de protecção que têm dado à figura do professor.
Professora Noémia, remato esta pequena crónica com o exemplo que foi para mim a sua postura de verticalidade, honestidade, dignidade e preocupação por ensinar. São essas qualidades, entre outras, que interessam proteger. São, no fundo, essas memórias que tenho de si que me permitem apelar a quem de direito que seja firme na condenação de todos os que não percebem que se não dermos boas condições aos professores, certamente, não teremos bons alunos e também pessoas bem formadas no futuro. É tão simples quanto isto!
Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal "Região-Sul" 26.07.2006
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