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A Teoria das Quintas

Numa altura em que se começa a falar novamente de regionalização, recordei-me de um artigo de opinião que escrevi há algum tempo. Quando o li, identifiquei logo algo que considero, salvo melhor opinião, a teoria perfeita para nos obrigar a reflectir. Chamei-lhe a teoria das quintas, ou seja, aproveitei esta associação de palavras para fazer a caracterização dos nossos comportamentos que a meu ver, resumem os nossos fracassos, o esbanjamento de oportunidades e a ausência de protagonismo.

A teoria das quintas ajuda a compreender a nossa própria realidade e malfadada desgraça. O Algarve não fala a uma só voz. Creio mesmo que nem sabe o que é isso. Até aqui, verdade seja escrita, não temos feito nada de extraordinário pela nossa região. Pelo contrário, há já muito tempo que nos demitimos das nossas responsabilidades, preferindo agir dentro do espaço das nossas quintas, assumindo uma postura de isolamento em detrimento de uma região de todos e para todos.

Hoje o Algarve é uma manta de retalhos, ou se preferirem, uma manta de quintas, todas elas bonitas, perto umas das outras, mas altivas e distantes da missão intermunicipal e regional que lhes é exigida.

Venceu a burocracia. Venceu um certo orgulho estúpido (que não é algo parecido ao bairrismo que até poderia ser saudável). Venceu uma certa ideia atroz de que a minha quinta é maior do que a tua e, por isso, quanto mais protagonismo tiver na minha terra melhor será para mim. Venceu ainda um autismo inqualificável, pois salvo a criação da AMAL, da GAM e de outros projectos de cooperação que existem no Algarve, os nossos autarcas quase nunca se entendem.

Este conjunto de atitudes, que me fazem lembrar uma orquestra onde todos querem ser solistas mas onde ninguém quer tocar para o grupo, têm tido várias consequências práticas. Destaco três, entre outras que poderia facilmente enumerar:

Primeiro, fez perigar uma ideia de identidade regional que todos gostam de apregoar como um excelente princípio para a regionalização, mas que não tem substrato enquanto não se inverter uma certa cultura de vaidade pessoal. Somos, por isso e apenas, uma região geograficamente definida.

Segundo, quando olhamos para a nossa classe política existente e emergente, vemos um conjunto de políticos, muitos deles com capacidades notáveis, mas sempre envolvidos em guerras improcedentes e estéreis que têm tido como consequência a inexistência de líderes regionais que nos unam e criem uma vaga de entusiasmo político e social.

Terceiro fica-nos sempre um trago amargo por um conjunto de oportunidades perdidas fruto de uma postura de cobardia social, da qual todos somos responsáveis, e que importa rectificar quanto antes.

Bem sei que as nossas quintas nos dão muito trabalho. Sei também que esse é o caminho mais fácil, com lucros imediatos, embora efémeros. O problema é que a manutenção destes comportamentos significa prescindir de uma visão estratégica global, abandonando, deste modo, uma certa ideia da região que nos envolve e à qual pertencemos. Como viram, há artigos de opinião, como este, que teimam em resistir ao tempo. São palavras que soam sempre a actuais.

Infelizmente.

Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal do Algarve 25.05.2006

Jornal do Algarve

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