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Os Protegidos

A tese dos protegidos, tal como nos é colocada frequentemente, leva-me a questionar factos que influem directamente no nosso quotidiano pessoal e profissional.

O mérito, tal como aquele anúncio a uma marca de whisky que todos conhecemos, já não é o que era. Quer dizer, o mérito é apenas algo importante quando se consegue libertar da camisa-de-forças a que é votado e prevalece inexoravelmente face à mediocridade e mesquinhez. Senão vencem quase sempre a protecção e o compadrio.

Sei que estas e as próximas linhas podem não interessar a todos. Sei também que as mesmas palavras que aqui redijo podem ter uma leitura tão díspar quanto ao estado de cada um. Obviamente, os protegidos dirão sempre que não é nada com eles e os outros afirmarão que é importante que as protecções acabem.

Marquemos pois uma diferença clara e importante. Nada me move contra as protecções, chamemos-lhes positivas, mas que não sejam sinónimos de ostracismo, desigualdades ou injustiças. Estas, apesar de criarem um certo tipo de favorecimento, são a consequência de uma afirmação do mérito, esforço e competência de cada um. Essa distinção, nestes moldes, parece-me salutar à priori. Insurjo-me, por isso, contra as outras, ou seja, as mais comuns e que denotam uma cultura perniciosa.

A cultura dos protegidos é uma rede complexa e com teias tenebrosas. Infelizmente, afirma-se todos os dias com a complacência de muitos. É uma bola de neve que arrasta, provoca estragos e cria situações injustas. Além disso, mina o que se considera um pilar do relacionamento humano. A protecção de alguns é uma falácia e interfere em três questões que julgo oportunas discutir. São elas a informação, a competência e a imagem.

A questão da imagem, ou da falta dela, parece-me importante. Quando se privilegiam apenas alguns para a transmissão da informação, potencia-se uma cultura selectiva do silêncio que mais não é do que um sentimento cobarde aplicado. Como é óbvio, tal procedimento cria desequilíbrios que têm reflexos e ferem a igualdade de oportunidades de todos e a dignidade de cada um. Há também a questão da competência. Muitas vezes elege-se o antónimo desta palavra como forma de vida. Fazem-no esquecendo muitas pessoas que até têm umas ideias mas que ficam à margem por não se encontrarem devidamente protegidas. Ao validarmos isto, ao vetarmos pessoas pese embora a sua competência, escolhendo outras que o não são, estamos a compactuar com o proteccionismo, promovendo a inoperância.

Finalmente, a imagem. Ao protegermos alguns em detrimento de outros, na ausência de critérios definidos, estamos a transmitir uma imagem deplorável, contribuindo indelevelmente para uma cultura de marginalização selectiva que corrói tudo à volta.

Escolhi três questões essenciais. Certamente haveriam muitas mais. Tenho a certeza que todas elas validariam as minhas preocupações e confirmariam o meu desprezo sobre esta cultura sórdida do favoritismo sem critérios.

Os mais pessimistas dirão que poderá ser uma doença sem cura. Aceito. Tento, todavia, lutar contra aquilo que, mesmo reconhecendo estar profundamente enraizado, pode ser beliscado através de denúncias ou reflexões como esta. Acreditem, em nome do rigor, do mérito e da igualdade de oportunidades, não tenho pejo em fazê-lo. Há muitos protectores conscientes da gravidade dos seus actos e muitos protegidos incompetentes por aí. Demasiados até…

Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal "Região-Sul" 29.03.2006

Jornal 'Região Sul'

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