O Verão numa via paradinha
No verão pensamos menos e evitamos decidir o que quer que seja. Fazemo-lo por exigência, não por cortesia. Está calor e os neurónios têm que fazer múltiplos esforços para laborarem. Por isso, adiamos tudo o que se puder resolver mais tarde. Ao inverter a ordem de prioridades, que habitualmente temos nos meses menos quentes, deixamos mais espaço para o ócio.
Estes meses são, por assim dizer, um interregno. Há espaço para umas cervejas, uns gelados (para quem não tem medo de engordar) e umas noites bem passadas na esperança de rejuvenescer a alma, porque o corpo, esse, tem que fazer horas extraordinárias para acompanhar o ritmo.
Fazemos tudo para nos parecermos bonitos no verão. São aquelas tatuagens que as raparigas colocam (e que muitas vezes nem sabem o que significam), são as pulseirinhas no tornozelo ou o gel que nos dá um efeito wet look. Trata-se de uma cultura do corpo que não se explica, que todos negam, mas da qual ninguém foge.
Os portugueses passam-se nesta época do ano. Ninguém tem dúvidas quanto a isto. Até parece que mais nada importa. O que interessa é olhar para o umbigo da menina, para o bronzeado do menino ou para a roupinha de marca bem assente num qualquer corpinho danone. É a altura ideal para enchermos os ginásios, para irmos buscar umas receitas de dietas manhosas, ou comer muito menos para tentarmos emagrecer rapidamente. O que interessa é esvaziar os pneus e diminuir as barrigas que temos.
A silly season é uma estação particularmente in e, por isso, é ideal para corrermos atrás dos famosos, na esperança de partilharmos um pouco dos flashes e da fama que os mesmos possuem, vá-se lá saber porque motivos.
Importa descobrir onde estão para tentarmos meter uma cunha a um amigo que tem um amigo que por sua vez é amigo de alguém, que nos pode deixar entrar naquelas festas que todos falam mas que não sabemos onde ficam.
A praia passa a ser a nossa maior ambição na vida. Todos os caminhos deixam de dar a Roma. Passam a dar à praia de Faro, Quarteira, Albufeira, Rocha e outras parecidas. Mesmo que tenhamos de dividir a nossa toalha com vários veraneantes, esta partilha é compensada pelo usufruto da areia, da água do mar e do sol que nos faz mais bonitos. E depois faz bem aos olhos. A sério…
Qual não seria o preço da mera possibilidade de espiar a vizinha, a amiga, a conhecida, pela qual nem damos nada no Inverno, mas que nos surge escandalosamente bonita no verão. Ao exercitar o nosso movimento ocular até passamos a ver a dobrar.
Assim vivemos dias que passaremos o resto do ano a recordar com saudade. Todos teremos as nossas aventuras e as nossas histórias para contar e repetir até à exaustão.
Mais cedo ou mais tarde, alguém nos questionará quantos quilos perdemos, o que vestimos, como nos comportámos, onde fomos e com quem, quantas fotos conseguimos nos sítios fashion, enfim, o que é que fizemos no verão passado?
De qualquer forma, vale a pena viver esta estação. Não interessa pensar muito no mundo. Ele há-de estar no mesmo sítio em Setembro. E quanto não vale deixar todas as preocupações de lado, por uns dias de descanso num paraíso qualquer. Este ano repetir-se-á todo este cenário. É inevitável. Já está profundamente enraizado.
Resta os apelos da ordem que importam não esquecer. Descanse mas não complique quem não pode descansar. Usufrua do nosso Algarve mas deixe-o em condições para que ele possa ser visitado e revisitado por todos os que queiram cá vir.
Boas férias.
Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal "Região-Sul" 23.06.2004
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