vialgarve                   
vialgarve                                Nuno Miguel Lopes Gaspar da Silva
Navigation Map
e-mail vialgarve

webmaster JNN
O Amanhã constrói-se hoje...

Às vezes dou por mim a pensar que gostaria de nascer outra vez. Esta interrogação faz todo o sentido, se pensarmos que a minha infância/adolescência em nada foi igual àquela que tiveram os meus pais, nem tão pouco foi semelhante à dos jovens que actualmente têm 20 anos e nem sequer será igual àquela dos que ainda a irão viver.

Tudo muda. Tudo evolui. As revoluções de mentalidades, mais não são do que uma evolução das ideias que se consubstanciam nas atitudes e no comportamento que temos perante a sociedade onde estamos inseridos.

Nem sempre se evoluiu de uma maneira correcta. Aliás, convém chamar à coacção, pelo menos no caso português, um certo editorial publicado nos anos noventa e que teve o condão de dividir os jovens em duas categorias: o antes e o depois da geração rasca.

De repente, todos começámos a falar dos jovens. De alguma forma passámos, primeiro de uma forma inconsciente e depois conscientemente, a abordá-los nem sempre da melhor maneira. Tudo serve para criticar e, cada vez mais, tudo lhes é exigido.

Exigimos que os jovens sejam a alternativa a um conjunto de vícios comportamentais que fomos adoptando em nome de uma sociedade que quisemos diferente.

Exigimos que assumam as rédeas do poder, embora não lhes permitamos muito que decidam porque para isso estamos cá nós. Mas mesmo assim, não hesitamos em considerar que o mundo será deles e que terão de assumir o tal poder para corrigir uma ideia consolidada de desconfiança em relação ao mesmo.

Exigimos que sejam portadores de uma noção ambiental que nos permita inverter o estado calamitoso do ambiente que deixámos conspurcar.

Exigimos ainda que sejam os porta-vozes da mudança e tenham qualidades muito desenvolvidas porque desfrutam de todos os meios para as alcançar.

Exigimos mais. Muito mais. É como se quiséssemos a todo o custo aliviar o fardo dos destinos do mundo para os ombros deles. Um mundo que ainda não é da sua responsabilidade, onde ainda não têm voto, mas do qual são já vítimas.

Apesar de confiar naqueles que hão-de ser o nosso futuro, não inocento todos os jovens. Recuso-me a fazê-lo porque entendo que muitos, conscientemente, já tomaram um conjunto de decisões que os levarão por maus caminhos. Reconheço, todavia, que o mundo deles, e talvez algumas das suas opções, são uma consequência de múltiplos erros que temos cometido, o que torna a sua missão mais ingrata, isto é, começarão a laborar num mundo desde logo viciado.

O mundo que eles vão encontrar surpreende-nos todos os dias, e muitas vezes, pelas piores razões. Confirmei isso ao ler, na semana passada, uma notícia publicada no Jornal Público, com o título “Relatório da ONU alerta para os problemas vividos pela juventude”, que retrata um conjunto de números e situações aterradoras.

Baseada no relatório inserido no “Programa Mundial de Acção para a Juventude”, criado por vários estados membros em 1995, e que contempla mais de um bilião de indivíduos entre os 15 e os 24 anos (representam 18% da população mundial), expõe com bastante frieza uma ideia de que “apesar da juventude mundial viver melhor hoje do que as anteriores gerações, muito jovens continuam a viver graves problemas de falta de formação, pobreza, problemas de saúde, desemprego, e as consequências das guerras”. E os números são verdadeiramente chocantes…

Desde 2003, dois milhões de jovens morreram devido aos conflitos armados, 6 milhões ficaram incapacitados, 12 milhões ficaram sem casa e 10 milhões ficaram traumatizados para toda a vida. Mesmo com os progressos anunciados a vários níveis, 110 milhões de jovens sofrem de subnutrição, 70 milhões vivem no desemprego, 113 milhões não têm qualquer nível de literacia e, de uma forma brutal, 7000 jovens são infectados por dia pelo vírus da Sida/HIV, apesar dos progressos em termos de prevenção e medicação.

É óbvio que os jovens serão os responsáveis no mundo de amanhã. Mas reflictamos nestes números. Não seremos nós co-responsáveis pelos mesmos? Em vez de colocar o peso dos destinos do mundo nos outros, não teremos nós a obrigação de aliviar esse peso enquanto podemos? Ou iremo-nos resignar ao velho discurso moralista que nos tenta absolver das nossas actuais responsabilidades?

Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal "Região-Sul" 12.05.2004

Jornal 'Região Sul'

Comente este artigo

Comentários por HaloScan.com
Tiago Torégão João Nuno Neves Pedro Miguel Ortet Jorge Lami Leal Jorge Moedas Carlos Baía Lara Ferreira Hugo Leonardo Nuno Silva Alexandra Paradinha Paula Rios Pedro Gonçalves Miguel Antunes José Leiria André Botelheiro André Ramos António Ramos Marco Rodrigues Outros