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A operação da PJ do Apito Dourado vem demonstrar o relacionamento pouco transparente entre a política e o futebol. Quer comentar?
(rúbrica "frente e verso")

Relativamente à questão formulada, poderia optar por dar a resposta da moda, ou seja, bastaria juntar-lhe umas quantas suspeições (mesmo que infundadas), dar ênfase à ideia de que atrás dos malfeitores presos nesta semana estão outros ainda piores, ou ainda, alinhar na imoralidade (que todos criticamos, mas da qual todos nos esquecemos) de condenar os acusados sem lhes reconhecer o direito à presunção da sua inocência.

Só que, até o processo estar concluído, até os acusados serem condenados ou absolvidos, não contribuirei para a fogueira instalada e que procura queimar tudo e todos.

Não sei se os que discordam de mim compreenderão estas linhas. Provavelmente estaremos perante o mesmo dilema. Eu sei o que defendo, eles também. E também sei que posso não ter razão, bastando para isso que sejam provados os crimes enunciados, como eles também sabem que poderão não a ter, bastando para isso que o processo não prove absolutamente nada.

Independentemente de um ou outro desfecho, é evidente a propagação de uma moda linguística de maledicência sobre o futebol e a política.

São assuntos frágeis e que têm sido alvos de uma onda de descrédito e desconfiança. Ora quando se juntam estes dois ingredientes num processo, habilmente designado como apito dourado, estamos perante uma mistura explosiva, isto é, estamos a meio caminho de condenar todos os que antes de o serem já o são. Sou defensor de uma justiça independente (imune a pressões de qualquer tipo), célere e eficaz, capaz de apurar os factos que estão em causa para condenar os prevaricadores e absolver os inocentes.

Dispenso, todavia, a justiça espectáculo. Dispenso os carros a alta velocidade, os aparatos de segurança despropositados e megalómanos, as notificações que são feitas dentro de um clima de espectáculo televisivo, a ausência de honestidade (e sentido prático) quando se efectuam as detenções dos suspeitos para os libertar mais tarde, pois bastaria notificá-los para prestarem declarações num determinado local.

Dispenso também, um certo apetite voraz de alguma da comunicação social sensacionalista, que há muito perdeu o norte em troco de um espectáculo televisivo que, para além de não esclarecer, desinforma e confunde.

Será que esta operação é conclusiva? Existirão relacionamentos pouco transparentes? Provavelmente existirão. Contudo, se assim for, necessitarão de ser provados factualmente e com provas concretas, pois não faltam por aí pessoas que sabem de muita coisa, mas que não provam coisa alguma.

Os políticos não podem estar no futebol? Os dirigentes do futebol não podem estar na política? Mesmo que, provavelmente, meia dúzia de pessoas tenham conspurcado esta ligação (agora ou no passado), não podemos confundir a árvore com a floresta, nem dar azo ao prolongamento da suspeita e da condenação sumária na praça pública.

Sinto-me cada vez mais desgostoso com a proliferação de uma certa sociedade que age antes de pensar e que condena antes de provar. Hoje qualquer crítica contra o futebol e a política é altamente mediática e dá protagonismo a quem a faz.

Haja alguém que não siga este caminho fácil e efémero, optando por pugnar pela defesa e dignificação destas duas áreas, separando o trigo do joio. Dirijo-me essencialmente a muita gente que há por aí, que está na linha da frente quando se trata de alimentar a suspeita, mas que não dispensa estar nas boas graças dos políticos e do clube de futebol da sua terra. Dá-lhes sempre jeito esse comportamento ambíguo.

Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal Barlavento 29.04.2004

Jornal Barlavento

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