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DÁ-ME LICENÇA SR. DR?

A grande maioria dos jovens portugueses teve o mesmo conselho dos seus progenitores: - "Filho(a), procura ser alguém na vida. Vê lá se consegues ser um doutor(a)."

Foi neste espírito, aliado a um esforço paterno e materno, muitas vezes no limiar das suas possibilidades físicas e monetárias, que muitos dos actuais licenciados se formaram, cumprindo, desta forma, um anseio a todos os níveis louvável, de muitos pais que, por um motivo ou outro, não tiveram ou não puderam frequentar o ensino superior. Importa recuar um pouco, talvez 30 ou 40 anos, até à sociedade da época, para sentirmos o porquê deste pedido familiar. Nesses tempos, a educação ministrada no ensino secundário e universitário, era uma meta apenas tangível para alguns e intimamente relacionada, não só com as capacidades intelectuais, mas também, e muito, com a disponibilidade financeira que cada família possuía.

Ser doutor significava por isso, pertencer a um grupo de pessoas, justamente cultas e sábias (o que não invalida um conjunto de excepções, como em tudo na vida), reconhecidas pela população como autênticos senhores distintos e com direito a um conjunto de mordomias e serventias. Esta imagem que se foi esbatendo no tempo, talvez ainda perpetuada nos meios mais pequenos, é, para mim, uma das grandes forças motrizes que levaram os "nossos" pais a incentivarem-nos quando nós, naqueles dias onde se evidenciava mais a irreverência adolescente, púnhamos a hipótese de começar a trabalhar e/ou abandonar a escola.

Portugal é hoje um país de licenciados. Há licenciaturas para todos os gostos e são vendidas anualmente promessas que, infelizmente, muitas vezes não se concretizam.

A ideia de que todos se podem e devem tornar doutores assumiu a ordem do dia. Não vejo mal nisto se encararmos o défice que ainda subsiste ao nível de licenciados. Mas, se analisarmos a oferta universitária, aí já se me colocam sérias reservas, nomeadamente pela inexistência de um planeamento político capaz de enfrentar e solucionar as lacunas do mercado de trabalho.

O ensino profissional foi abandonado e tal facto trar-nos-á sérias consequências muito em breve. O ensino universitário atingiu o seu apogeu teórico, negligenciando a vertente prática, fundamental para que os jovens ingressem no mercado de trabalho. Enfim, tudo em nome de ser doutor a todo o custo, muitas vezes descurando as capacidades e responsabilidades inerentes, a troco do nome pomposo e do pretenso estatuto social.

Há pessoas que inclusive perderam a noção das coisas. Ser doutor hoje não é ser mais do que ninguém. É apenas ter mais qualificações. Haja humildade para o reconhecer…

O culto do ser doutor, aliado ao que considero ser a má educação pessoal, traduzida numa altivez a todos os níveis reprovável, transbordou para um conjunto de situações bizarras e em tudo marginais ao real estatuto que um licenciado deve possuir, a começar pela postura humilde e responsável que deveria ter aprendido em casa e na escola.

Em muitas organizações, principalmente nas da administração pública, muitos deixaram de ter os seus nomes de baptismo. Passaram simplesmente a ser o(a) doutor(a).

Uns ainda se insurgem. Outros deixam-se levar porque, quiçá, necessitam disso para lhes encher o ego. Para mim, para além do erro técnico de chamar a um licenciado doutor, porque ele só o será quando completar o doutoramento (aí passa-se a escrever por extenso), caímos numa cultura de tratamento impessoal e passível de crítica.

Entendo que, tendo em conta uma perspectiva de vocabulário, só deveríamos tratar por doutores todos aqueles que pertencem às áreas da medicina, jurídica e académica. Juntaríamos a isto, por uma questão de cortesia e de bom senso, todos os casos em que as próprias pessoas o peçam, ou os casos em que nos sentimos menos à vontade para deixar de tratar as pessoas pelo seu título académico. Enfim, tudo decorre de uma avaliação individual e pessoal do tratamento e da forma como desejam ser tratadas.

Por mim, por mais cursos que tire, e independentemente da licenciatura que já possuo, farei questão de preservar o uso do meu nome porque o meu ego só fica preenchido com realizações profissionais e pessoais. Dispenso o resto.

Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal "Região-Sul" 10.03.2004

Jornal 'Região Sul'

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