logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

O Governo não altera a sua linha económica. Como comenta?
(rúbrica "frente e verso")

Quando me colocaram esta questão, recordei logo uma fábula, repetida, exaustivamente, durante a infância de quase todos nós, sobre a cigarra e a formiga. Acrescentei quase todos, porque hoje se entende perfeitamente, que a lição que a fábula encerra em si, não chegou a alguns meninos, hoje homens crescidos, e com responsabilidades governativas até há pouco tempo.

Ao falar sobre economia, torna-se importante procurar avivar novamente essa "útil lição de que num mundo imperfeito o trabalho é recompensado e a leviandade castigada". Perdoem-me pois a repetição da fábula, mas mais do que recontar uma história, para mim, é quase uma obrigação moral recordar alguns princípios nunca adquiridos por esses senhores.

A formiga passa um Verão a trabalhar arduamente para guarnecer a despensa, enquanto a cigarra se senta na relva a cantar ao sol. O Inverno chega, e a formiga está confortavelmente guarnecida, mas a cigarra tem a despensa vazia: dirige-se à formiga e pede-lhe alguma comida. Então a formiga dá-lhe a resposta clássica: "O que é que andaste a fazer durante o verão?"
-"Com o devido respeito, cantei, cantei dia e noite."
-"Ai cantaste? Então agora, dança."

Como se percebe, não teríamos qualquer dificuldade em passar do mundo imaginário para a vida real. Bastaria, para isso, um pequeno toque para adaptarmos as figuras aos dois modelos económicos, propostos por partidos com experiências de vida diferentes. De facto, o mundo do António e do José, apenas têm em comum o país. É fácil explicar todas as outras diferenças.

Enquanto o António, rapaz bem vestido e de verbo fácil, preconizava uma cultura de vida desprendida da realidade (prometia tudo o que tinha, e também, o que não tinha), o José, mesmo correndo o risco de ser um sujeito impopular, dava sempre ouvidos à sua amiga Manuela, pois sabia, que o tal exemplo da formiga, não era só ficção.

O José era, consequentemente, mais poupado e financeiramente mais disciplinado.

A economia de um país, é uma forma ampliada, daquilo com que nos deparamos todos os dias quando olhamos para a nossa carteira. Todos temos vontade de ter uma ou várias casas, um ou mais carros e muito dinheiro para gastar.

Todos temos sonhos, que são possíveis de realizar, mas não de uma só vez, nem ao mesmo tempo, exceptuando algumas situações, que, como a própria palavra nos indica, não confirmam a regra. Sabemos, por isso, que apenas poupando hoje, poderemos gastar amanhã. Fazendo sempre escolhas, que embora nos impossibilitem de ter tudo num plano imediato, nos darão mais condições para satisfazermos as nossas ambições a médio/longo prazo. Isto, inclui, resistir à tentação fácil de pedir mais dinheiro do que aquele que podemos pagar ao fim do mês.

O mundo do António, e também dos seus amigos, nunca quis entender este último parágrafo, nem tão pouco as possibilidades reais da maioria dos portugueses.

O governo deve alterar a sua conduta económica? Para mim, não.

São escolhas menos atractivas. Menos populares até. Mas ao menos, quando recordarem o legado do José, recordarão outras coisas, que, certamente, serão mais nobres do que um "país de tanga".

Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal Barlavento 09.10.2003

 

Jornal Barlavento

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