logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Uma Dica para os nossos Empresários Turísticos

Não sou empresário nem perto disso, não tenho sequer formação em gestão de empresas, no entanto, permito-me a arrogância de fazer uma sugestão, "dar uma dica" aos empresários turísticos do Algarve, faço-o porque sinto a obrigação de o fazer. Sinto-me na obrigação de alertar os mais desatentos ou mais renitentes para a importância de desenvolver a sua actividade seguindo uma estratégia de Qualidade Ambiental.

Isto porque, se desde há muito se apregoa a necessidade de promover um turismo de qualidade para o Algarve, é preciso entender que para tal é necessário ter serviços e produtos com qualidade, bom clima, segurança etc, etc, e também Qualidade Ambiental. É esta necessidade de Qualidade Ambiental que os nossos empresários turísticos tendem a esquecer ou menosprezar. É fundamental que entendam este conceito, esta necessidade e se posicionem com uma estratégia ambiental de médio prazo, sob risco de o turismo Algarvio vir a ser prejudicado por outros destinos internacionais, mais atentos, que assumam as suas responsabilidades ambientais e definam estratégias ambientais ganhadoras.

Tentemos entender a necessidade de uma estratégia que inclua um compromisso com a Qualidade Ambiental tomando como exemplo os desodorizantes, pode parecer um exemplo disparatado mas com um pouco de paciência verão que não é. Há alguns anos atrás, todos os desodorizantes continham CFCs como gás impulsionador, no entanto, quando o problema da camada do ozono ganhou visibilidade pública, alguns empresários mais atentos, apresentaram-se no mercado com produtos "amigos do ambiente", produtos sem CFCs. Estes produtos um pouco mais caros e obviamente dirigidos a um cliente alvo específico - o cliente com fortes preocupações ambientais - acabaram por revelar-se um êxito. Estes empresários criaram e conquistaram na altura um novo nicho de mercado - as suas preocupações ambientais e visão estratégica conferiram-lhes uma vantagem competitiva sobre os seus concorrentes.

Mas rapidamente a preocupação com a camada do ozono ganhou projecção na opinião pública e os desodorizantes com CFCs deixaram de vender obrigando os seus empresários que ainda os produziam a optar pela produção de produtos sem CFCs. Estes empresários tiveram perdas por dificuldades no escoamento de stocks existentes e custos na tardia reconversão do processo produtivo.

O que inicialmente foi uma vantagem competitiva para alguns - apresentar produtos sem CFCs - rapidamente se tornou uma exigência de mercado. Obviamente os empresários mais inovadores tiveram inicialmente custos acrescidos no desenvolvimento do novo produto, no entanto, estes empresários conquistaram um novo nicho de mercados e não tiveram, mais tarde, de "à pressa" alterar o processo produtivo, como os outros quando a ausência de CFCs se tornou uma exigência de mercado. Assim os empresários mais atentos ganharam em dois momentos aquilo que os mais desatentos ou renitentes perderam nos mesmos dois momentos - primeiro a conquista do novo segmento de mercado e mais tarde a adaptação às novas exigências do mercado.

Vejamos agora o mesmo tipo de raciocínio adaptado ao caso do turismo. Verifica-se que alguns promotores turísticos no Algarve, mais atentos, estão já a usufruir, ou pelo menos alinhados para usufruir das suas apostas no desenvolvimento de produtos com Qualidade Ambiental, enquanto que outros continuam a ver passar comboios ou pelo menos de nariz torcido a ver o que acontece. Sendo que a nossa grande "guerra" é, ou pelo menos devia ser, trazer os turistas para o Algarve e não uma vez cá "puxa-los" para o hotel a ou b, ou resort x ou y, parece importante que o Algarve, como um todo, tenha a ambição e a capacidade de ganhar a vantagem competitiva de apresentar no mercado internacional um produto turístico com qualidade ambiental. Porque caso contrário corremos o risco de, dentro de alguns anos, termos de, tal como os senhores dos desodorizantes que insistiram em manter os CFCs, alterar a nossa estratégia para oferecer um produto turístico com Qualidade Ambiental ao nível dos nossos concorrentes internacionais. O problema é que mudar as características ambientais da oferta turística de uma região pode não ser tão fácil como mudar a linha de produção de um desodorizante, senão mesmo impossível.

Jorge Moedas
Engenheiro do Ambiente
O Algarve 26.09.2002

 

Jornal 'O Algarve'

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