A informação é um bem precioso. O seu principal requisito é a veracidade, não, ao contrário do que nos querem levar a crer, a verosimilhança ou semelhança.
Nesta confusão de conceitos está o cerne da questão que pretendo levantar esta semana.
A comunicação social, referindo-me ao segmento das televisões generalistas nacionais, ainda não percebeu bem a diferença.
Ver um noticiário no espectro televisivo actual, poderá fazer com que sejamos levados a pensar que nada acontece neste país. Avaliando o tipo de assuntos que são abordados e a respectiva profundidade, relevância ou simplesmente interesse real. Isto sem falar na forma como "tratam" a notícia, chegando os pormenores a serem dados de forma diferente, consoante o canal. O Portugal informativo actual resume-se aos processos de pedofilia, às conversas telefónicas de ex-ministros do anterior governo, a crimes, despejos, crises familiares, o roubo da tabacaria da Aldeia... e acidentes rodoviários, desde que bem "regados" com sangue. Esta é a informação que passa. Mas chamar a isto informação é depreciar o conceito.
Entristece-me pensar que numa sociedade que evoluiu de 2 canais para 4 e destes para tantos outros, para não falar na Internet, esteja tão pobre e decadente.
O bloco de informação que desde o início das emissões a preto e branco servia a nobre missão de elucidar, actualizar e sobretudo INFORMAR, foi alterado, verificando-se hoje (no século da informação), sobretudo nos noticiários da noite, que se transformaram em autênticas novelas (até chegando a noticiar as suas próprias produções e entrevistar os "seus" actores). Serve também de base para o enorme ego de alguns pivots, que ofuscam os convidados e os comentadores, ou seja, a notícia, tout court.
Esta linha editorial permitiu que a missão de reportar e informar passasse a ser a de comentar, dar a opinião e tratar a notícia da forma mais conveniente ao posicionamento do canal, adequando-se ao que o público-alvo quer ouvir e, sobretudo, gerindo com as audiências como bitola: receitas publicitárias oblige.
Esta falta de assunto, como é lógico, não é real. Muita informação pertinente perde-se, não é tratada e não é debatida. Acredito que a democracia deva estar presente (especialmente) neste negócio, ou seja, passar o que as pessoas querem ouvir; mas o limite é quando o critério jornalístico fica subordinado à mediocridade, ao analfabetismo e aos assuntos cor-de-rosa. Já repararam que nós sabemos aquilo que 4 ou 5 pessoas decidem... e da forma como elas querem... curioso, não?
Pelo menos produzam um noticiário fora do prime time para aqueles que querem ser informados e não entretidos. Este será o serviço público. Este é o verdadeiro desafio!
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Jornal "Região-Sul" 29.10.2003