Ardeu uma parcela importante do barlavento algarvio. Não interessa quantos hectares. O interior vive da floresta, da sua protecção, do seu corte, das aparas para os fornos, para momentos de lazer, como recurso turístico.
Foi-se mais uma fonte de receitas, vão ficando cada vez menos.
O Algarve ficou mais pobre. Levará certamente algumas décadas a regenerar o imenso manto que cobria a nossa terra.
Mas as palavras de tristeza devem acabar assim que o fumo dissipa. A partir daí, mão à obra. Notei nos autarcas dos municípios mais atingidos um semblante de comoção genuína, de desolação profunda, mas nas suas acções a esperança e a força de querer resolver e preparar o futuro. Sem lugar à política barata. Tiveram uma postura apartidária, como se esperava. Algumas tentativas de politização foram esmagadas pela contenção própria do momento que se viveu. Gostei da visita do PM, reunindo as entidades regionais e alguns deputados. Também aqui a contenção foi louvável. Portugal uniu-se, desde a questão de Timor que não sentia isto.
Triste foi saber que famílias inteiras foram assistir ao massacre. Por vezes esqueço-me que estamos em Portugal. As pessoas param ou abrandam para ver acidentes de trânsito. Mas daí a fazer alguns quilómetros para ver casas e árvores a arder... Não me estranha por isso as políticas editoriais de notícias de algumas estações televisivas.
Nas imagens que vi na televisão (e foram muitas; repetidas à exaustão por sinal), podia-se verificar que a floresta (e restante área verde) está abandonada. Já não é rentável apanhar o pasto para o gado, como não é plantar castanheiros e outras árvores de crescimento lento. Agora temos o eucalipto e o pinheiro, que para além de “secar” o terreno, arde mais facilmente. Tudo isto com uma grande dose de desordenamento.
Este flagelo podia ter sido minorado, não fosse a incúria dos proprietários florestais (estado incluído). Avança-se muitos números, mas não existe um cadastro actualizado. A explicação está relaciona com a baixa dimensão das propriedades, 2 hectares; na “vizinha” Andaluzia essa dimensão baixa para menos de metade, embora por lá exista um cadastro actualizado. Gerir é ter informação. Como se pode planear sem fazer ideia de quem é a terra “x” ou a “y”?
Os mais espertos dizem que a floresta não dá rendimento que permita a sua limpeza (soa-me ao caso do pagamento por conta dos taxistas). Se assim for, dou uma sugestão: ofereçam os terrenos a quem queira tratar deles.
A solução pode passar pelos agrupamentos de produtores. Através de um aumento da dimensão, podem diminuir custos. Pessoalmente, considero esta despesa um investimento. O “porquê”, infelizmente, está à vista.
Outra das iniciativas louváveis foi o imediato envio de médicos, psicólogos, assistentes sociais e até administrativos para apoiar a população mais afectada. A GNR também desempenhou um importante papel nesta missão.
Por fim os bombeiros. A bravura, disponibilidade e abnegação demonstrada por cerca de 450 homens e mulheres que arriscaram a sua vida por todos nós.
Todos.
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Jornal "Região-Sul" 27.08.2003