Aproxima-se o fim de ano, época ideal para uma reflexão sobre o que fizemos bem, aquilo que poderíamos ter feito melhor, o que não deveríamos ter feito e pensar naquilo que ainda podemos fazer. Este exercício é higiénico para a vida pessoal e fundamental na vida empresarial e institucional. A isto chamamos planeamento.
Planear não obriga escrever páginas de texto, planear é uma atitude, é estar atento, não repetir erros (internos ou da concorrência). Mas o que é que isto tem a ver com o Natal? Nada. Tudo. A nossa sociedade colocou na transição do ano uma força mística de renovação, uma utopia de que a cada 365 dias se fecha um ciclo. Proponho que aproveitemos esta desculpa.
Do conceito de planeamento prossigo para o de visão, ou de falta dela. Os comerciantes, raras vezes chamados empresários (e poucas vezes o são), já abandonaram a luta pela defesa do seu sustento. As várias associações esforçam-se sem dúvida por tentar captar consumidores para as baixas outrora cheias e o expoente máximo da actividade comercial. Mas será que não é necessário aqui um esforço acrescido de planeamento estratégico? Será que a oferta de um carro de gama baixa atrai verdadeiramente seja quem for? Qualquer centro comercial oferece melhores prémios e essencialmente um valor acrescentado. Seja o estacionamento dimensionado à procura; a variedade na oferta que disponibiliza, lá estão as marcas, o ambiente e os serviços que os consumidores aprenderam a desejar. O marketing ao consumo no seu expoente máximo.
Mas, e os pequenos comerciantes, que será deles? Continuarão a lamentar e culpar as superfícies, ou seja, a sua inacção pela acção de outros. Têm os seus dias contados. Lanço por isso uma ideia de como viabilizar a tradicional baixa: a criação de uma sociedade que administre as várias lojas, através da gestão dos direitos de utilização daquele espaço, transformando o comerciante em capitalista. Esta redução de custos, que resulta da dispersão dos recursos por tantas empresas, permitiria contratar uma equipa especializada para planear este novo modelo de zona comercial, aproveitando fundos estruturais.
As associações fariam lobby junto do poder público, que em discurso está com eles. Importa por isso investir, criar uma verdadeira dinâmica de centro comercial, com uma gestão profissional, gerindo este espaço de forma a captar as marcas que os consumidores procuram. Mas estamos num país onde a posse do espaço é mais forte que a vontade de ganhar. O que condiciona logo à partida este meu exercício. Boas Festas.
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Jornal "Região-Sul" 23.12.2002