logo NOVA ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

No país do desenrasca

Desde sempre, um dos traços que melhor pode caracterizar os portugueses, é a capacidade para desenrascar.

Embora a nossa sociedade tenha evoluído, esta característica reside, impregnada no nosso código genético, como uma nódoa de café. Esta capacidade não é um defeito por si só, no entanto, aparece normalmente associada a um grave problema, também este endémico, a falta de capacidade de planear.

O planeamento é central à gestão. Planear é antes que tudo antever. Estar preparado, ter cenários alternativos.

Quantas vezes, naquele último minuto, é necessário rever tudo, apenas porque não houve um planeamento efectivo. Liderar não é estar no topo de uma hierarquia, liderar é ter visão, saber comunicar e, muito importante, motivar. Temos aqui um filão; a formação de dirigentes.

A formação é a chave no melhoramento das competências individuais. Nunca como hoje se fala tanto de formação profissional. O investimento global é suficientemente grande para ser desperdiçado. Mas de facto está a ser. Forma-se do gabinete para fora, ou seja, programa-se em função daquilo que pode ser vendável, daquilo que as pessoas gostam, não do que precisam. Vejamos: as empresas e instituições têm necessidades que dependem do sector de actividade, da organização interna, dos próprios recursos humanos, e da estratégia traçada. Por isso, possuem diferentes falhas. As organizações estão assim fora deste processo de planeamento. Mesmo as associações de empresários esquecem-se muitas vezes de auditar as necessidades dos seus sócios, antes de vender no mercado os seus cursos.

Noutra perspectiva, a individual, temos formandos que pretendem aumentar os seus conhecimentos em áreas específicas, mas aparece aqui outro problema -os formadores-. O certificado que habilita alguém a desempenhar esta função, não significa necessariamente que o deva fazer em qualquer área. Mas como nem sempre é fácil encontrar formadores especialistas, devido também à precariedade desta profissão, coloca-se um contabilista a dar marketing, ou um advogado a dar recursos humanos.

Na minha opinião, chegamos a um ponto em que temos de equacionar uma formação mais personalizada e dirigida, no trabalho. Mais cara, mas sem dúvida mais próxima das necessidades das empresas e dos colaboradores.

As universidades também devem desempenhar um papel mais activo, para além dos bacharelatos e licenciaturas, devem cada vez mais organizar pós-graduações e outras especializações direccionadas ao mercado de trabalho, não apenas como forma de financiamento, mas assumindo a sua responsabilidade para com a comunidade e o desenvolvimento.

Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Jornal "Região-Sul" 23.04.2003

 

Jornal 'Região Sul'

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