logo NOVA ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Tensão Alta

Os territórios situados acima da Via Infante, com uma densidade populacional baixa, representam acima de tudo uma forma de estar e de sentir diferente. Considero que esta sub-região é a fiel depositária do nosso património cultural e etnográfico, no fundo, da matriz genética do Algarve.

Estes territórios estão limitados por diversos instrumentos de ordenamento do território. Seja a REN, a RAN, o PROTAL, os PDM's e tantas outras siglas que significam constrição e baixa capacidade de instalação de negócios e pessoas, pela limitação da ocupação do espaço. Se por um lado limita o desenvolvimento deste grande território, por outro reserva uma parcela das especulações selvagens que destruíram o litoral.

Por princípio, concordo com a reserva que é feita, em especial para a utilização particular. Houve um esforço no investimento público, infra-estrutural, embora com poucos resultados, designadamente na fixação de população, no crescimento do tecido produtivo e adaptação da realidade agrícola, quase de subsistência, para novas, onde a inovação e o acompanhamento das evoluções do mercado poderiam gerar mais-valias consideráveis, nomeadamente no cruzamento das explorações agrícolas, florestais ou outras, como o turismo.

O interior carece de investimento privado. Empresas que apostem nesta área e empreguem, estimule a pequena economia que ainda por lá subsiste. Para tal, considero fundamental a formação de jovens e o estudo concreto de zonas onde seja possível estimular e "encubar" empresas, em especial para jovens empresários, e depois tornar mais permissível as zonas REN e RAN, por forma a facilitar o aparecimento de unidades hoteleiras de pequena dimensão, ou de actividades empresariais que permitam sustentar o seu desenvolvimento, sem colocar em risco o património rural, que é de todos.

É preciso não esquecer que o Algarve tem capacidade de captar turismo. Porque não aproveitar este fluxo e canalizar para o interior uma parte? Por muito pequena que seja, permite certamente criar espaço para que a iniciativa privada não fuja para o litoral, antes pelo contrário, os jovens (e menos jovens) que trabalham nas empresas de vocação turística, que reuniram experiência e algum capital, podem regressar à sua "terra" e garantir por lá o seu sustento. Aqui entra, como é natural nestas coisas, algum capital público, em especial na dinamização e promoção do território, o resto deve ficar nas mãos das pessoas.

Termino com uma pequena nota de preocupação: não posso deixar de focar o que considero ser uma afronta às limitações que os investidores sentem "neste" Algarve interior. O Estado pretende instalar uma linha de alta tensão, que passa especificamente em zona protegida. Porque será que a Rede Natura e a REN servem de desculpa para reprovar projectos e noutros casos, como este, já permitido, será justo? A hipótese alternativa era esta "linha" acompanhar a Via Infante, o que me parece uma solução muito mais interessante, visto se tratar de uma infra-estrutura pública (i.e. uma auto-estrada), com poucas habitações nas suas imediações.

Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Jornal "Região-Sul" 18.06.2003

 

Jornal 'Região Sul'

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