A opinião pública não tem grande opinião dos seus políticos. Votam alguns, poucos. A consciência colectiva aprendeu a falar mal desta "classe".
Mostraram recentemente num noticiário do "serviço público", a propósito da criação de mais um partido político, afirmações de alguns cidadãos. A maioria era contra. O motivo principal consistia no dito "fardo" que representava mais políticos, isto para resumir de forma mais simpática.
É interessante e pode até ser encarado como uma piada, mas de mal gosto. A classe política está mal vista. Importa por isso reflectir porquê.
Mais um partido político significa mais alguns custos para o estado, no entanto, o facto de existirem mais políticos não. Não são alterados os números de deputados, executivos do poder local, etc, etc, etc...
Mas, será que existe espaço para mais um partido de direita? Claro que sim. Existem "nichos" da população de direita que não se sente representada pelos partidos existentes, mas, será que este novo partido pretende representar este grupo de pessoas? Penso que não. A criação de partidos políticos é uma das grandes regalias da democracia, mas a criação de um partido apenas pelo facto de se ter sido esquecido, ou de não ter força ou confiança (que são coisas diferentes) para "ir a votos" é em si uma falta de responsabilidade e seriedade política.
Da direita à esquerda, existe um conjunto de partidos que dominam a dinâmica e o espaço eleitoral, todos eles importantes para o fortalecimento da democracia através do debate de ideias. Todos defendem o desenvolvimento, embora cada um tenha o "seu" modelo e o "seu" quadro de referências políticas. E o novo partido do Dr. Manuel Monteiro, será que tem um novo e refrescante modelo, ou limita-se a refundar um PP à sua medida, com a transferência de um segmento de quadros e militantes esquecidos? Proponho que se chame MM (desculpem, não resisti).
Se este partido chegar a ver a luz do dia, pode diminuir o score eleitoral do PP, mas será que altera ou contribui para algo de novo? Penso que não. Acredito que irá contribuir para mais descrédito da classe.
Um partido político, seja ele qual for, assenta num conjunto de ideias (não necessariamente ideologias), no entanto, estas organizações são formadas por pessoas, e estas interpretam e actuam com base no seu perfil, estilo e personalidade. Fundar um partido antes que tudo é uma responsabilidade. Não apenas para os militantes e simpatizantes, mas para a população em geral e para os outros partidos em particular. Porquê? Porque se trata de dar, não receber. É por isso importante que cada novo partido defenda um espaço próprio, não se trata de um clube de futebol. Se cada grupo de militantes descontentes, de qualquer dos partidos da nossa República, fundasse um partido, não havia imaginação para tantas siglas necessárias (perdoem-me o humor negro).
O exemplo do PRD é importante para ilustrar a minha opinião, quando apareceu vinha com um novo conceito de democracia e de estar na política. Por exemplo, os seus deputados não estavam sujeitos à disciplina parlamentar rígida (tirando as votações de moções de censura e do orçamento e plano), afirmavam-se assim pela tentativa de reformar (Renovar) a democracia, conseguindo assim um espaço próprio (considero um dos poucos partidos verdadeiramente de centro; talvez fosse estratégia eleitoral), no entanto, poucos anos depois desapareceu. Porquê? Porque perdeu essa diferença, com isso o seu apoio eleitoral e sem este...
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Jornal "Região-Sul" 12.03.2003