O Algarve não está dividido entre sotavento e barlavento. A divisão assenta no traçado da Via Infante. Para baixo encontramos um litoral mais ou menos cosmopolita e desenvolvido, embora descaracterizado, enquanto que os territórios acima desta via são de facto os fieis depositários das tradições e costumes algarvios. Aqui ainda se pode respirar um pouco dos antigos ares...
Não pretendo afirmar que o litoral não é Algarve, claro que é, no entanto foi perdendo muitas das características da região, desde logo a destruição do imenso património arquitectónico. Construiu-se sem procurar preservar os traços que caracterizavam a paisagem urbana: o uso da telha regional, das cantarias em pedra, dos telhados em bico em algumas zonas, as chaminés típicas, as açoteias, enfim, perdeu-se património colectivo, justificado pelo crescimento das populações, e pela pouca força dos autarcas, face ao poder do imobiliário.
Considero que as autarquias deviam estudar a sua arquitectura tradicional e desenvolver planos de enquadramento obrigatórios onde a traça, as cores utilizadas, os materiais exteriores e mesmo as zonas verdes, fizessem parte dos pré requisitos para o projecto ser viabilizado.
Embora não seja possível “reparar” o mal que se tem feito, pode-se salvaguardar algumas zonas e bairros mais antigos das vilas e cidades, travando o avanço do betão cinzento (ou pintado de cores berrantes). Não sou contra o crescimento urbano, mas a promoção territorial da região baseia-se no sol e praias e no património, já que os turistas maioritariamente procuram o primeiro produto, mas cada vez mais querem visitar as zonas envolventes. É aqui que entra a estratégia do enquadramento arquitectónico, pois uma cidade com blocos sem identidade ou referências não atraem visitantes, antes pelo contrário, afastam-nos, criando mesmo um péssima imagem com reflexos nos restantes produtos e atractivos.
A antítese é exactamente o Mundo Rural, aldeias que salvaguardaram a essência do Algarve, onde as chaminés rendilhadas decoram ainda os telhados.
A pouca pressão urbanística é responsável por esta preservação, mas por isso devem ser criados instrumentos de ordenamento para evitar que se perca a identidade. Devemos aprender com os erros do passado. Ainda estamos em tempo de salvar o que resta do património algarvio.
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Jornal "Região-Sul" 09.04.2003