Por princípio defendo o direito à greve como mecanismo de compensação face ao poder que a entidade patronal pode exercer. Na prática este direito transforma-se numa arma de pressão política que em nome de muitos, alguns utilizam. Refiro-me a alguns sindicalistas profissionais, afastados dezenas de anos das suas profissões sem disposição para as retoma, contrariando o espírito de rotatividade que esta função deve ter, o sindicalismo (como a política) não é uma carreira.
O direito inalienável à greve deveria ser exercido maioritariamente no local de trabalho. Os grevistas "picavam" o ponto e permaneciam a jornada de trabalho à porta ou nas instalações, sem trabalhar. Da avaliação da adesão à greve neste modelo resulta seguramente uma maior percepção do nível de descontentamento. Nunca seria confundido com um dia de descanso, mas de protesto ou reivindicação consciente dos seus direitos.
Tenho assistido estupefacto às tomadas de posição de alguns médicos sindicalistas, relativamente à política de saúde. Há muito que não havia política nesta área, administravam conflitos e reagiam aos problemas, sem qualquer visão. Falam de insegurança da classe médica, com a privatização da gestão dos hospitais. Será que a iniciativa privada é assim tão insegura para técnicos altamente especializados (e escassos) como os médicos? O estado tradicionalmente não é bom gestor. Já nos esquecemos do estado em que ficou a banca, seguradoras e industria pesada nacionalizada? Convenhamos que a iniciativa privada tem demonstrado saber gerir melhor, não sei se por cultura, se por motivação.
Em vez de incitar à greve, os sindicatos e as oposições deveriam juntar esforços para levantar o país. Bem precisa. Esqueceram-se que se o desemprego está a disparar não é certamente culpa da recém chegada governação, mas sim dos últimos anos de despesismo e falta de visão, que só se combate com a ajuda de todos. Todos! Não é com greves que se credibiliza o mercado de trabalho, tão absentista e improdutivo, comparado com as novas economias de leste e os nossos tradicionais competidores.
Algumas considerações soltas: os professores podem pedir um ano sem horário, reformando-se no seguinte; os funcionários públicos reformavam-se com 36 anos de serviço; esses funcionários recebem a pensão com base no seu último vencimento; os militares passam à reserva, muitos com menos de cinquenta anos. Por oposição, os assalariados privados têm que esperar até aos 65 anos, com 40 de descontos, recebendo a reforma com base no seu histórico de descontos e com índices de produtividade mais elevados, e fazem menos greves...
Por fim uma nota positiva à proposta de evolução da carreira da PSP que passará a premiar a evolução curricular e o desempenho, não a antiguidade. Não deveria esta medida ser aplicada aos restantes funcionários públicos?
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Jornal "Região-Sul" 06.11.2002