Tenho vindo a reflectir sobre a sustentabilidade de algumas políticas de desenvolvimento que têm sido apresentadas para o Algarve. Procurei os projectos estruturantes que foram pensados nos últimos anos, cruzei essa informação com a estratégia da região, com os planos de desenvolvimento local, com os planos de promoção, e em especial as fontes de financiamento que têm existido ao dispor de todos. Obtive uma enorme desilusão.
Assumamos a terrível dependência que esta região tem do turismo. Em 2001 Portugal foi anfitrião de 12 milhões de turistas, a WTTC prevê que até 2020 possamos receber cerca de 40 milhões. Qual é a fatia deste "bolo" que queremos "desviar" para o nosso Distrito? O Algarve tem actualmente a necessidade de qualificar este sector, acabar com as camas paralelas e qualificar as outras. É gritante a assimetria entre as praias cheias de pessoas e o comércio e restauração vazios, as grandes superfícies cheias e as suas registadoras vazias.
Não necessito importar nenhum caso prático para melhor expor a minha opinião, basta reflectir sobre Tavira. Este concelho em poucos anos conseguiu apresentar melhorias consideráveis na sua oferta global, sem com isso perder a identidade, antes pelo contrário, foi com base nela que desenvolveram toda uma estratégia, fiel ao património e cultura originais, mobilizadora de populações e empresas. A gestão do território foi realizada com base num bom planeamento e numa melhor implementação, é o modelo a seguir.
A definição da estratégia regional deve permitir a concertação entre modelos de desenvolvimento local coerentes com o regional, devendo este incorporar as características que nos diferenciam da restante oferta nacional e internacional. A definição desta estratégia deve passar obrigatoriamente por todos os intervenientes da economia, designadamente empresas, poder local, regional, associações de sector e as instituições de desenvolvimento, esquecendo as normais divergências políticas e evitando os discursos miserabilistas, trabalhando em comum na construção de um pacto regional.
Dentro deste espírito é urgente qualificar também as actividades que servem (ou deveriam servir) de apoio a um turismo de qualidade, refiro-me em especial à saúde, urbanismo, segurança (terrestre e marítima) rede viária e transportes, abastecimento de água, saneamento e naturalmente a formação profissional e o ensino, entre outros.
Já temos a auto-estrada, mas também muitas estradas municipais degradadas, o problema "EN125" por resolver e a ligação longitudinal por acabar. Um mito desta região é o comboio. O rácio pessoas transportadas/custo operacional é elevado de mais, face aos recursos públicos que vem consumindo. Porque não substituir o comboio pelo metro de superfície que ligue o Algarve com rapidez e comodidade, apresentando-se como uma alternativa de qualidade ao automóvel, criando-se ligações rápidas, mais ecológicas, que melhoram o tráfego urbano, os problemas de estacionamento e a distância psicológica, aumentando a mobilidade das pessoas?
A Saúde é outro precioso contributo para sustentar o turismo de qualidade, mas também uma oportunidade de negócio, se considerarmos o mercado dos reformados de outros países (com elevado poder de compra) que procuram um clima mais ameno, estas pessoas não têm sido fáceis de atrair, pois não dispomos de uma rede constante de cuidados de saúde (ao longo do ano).
Para além dos recursos serem escassos, também este espaço o é, por isso reflictam sobre a razão que nos leva a optarmos pelo Algarve para residência ou férias. Devemo-nos esforçar por contribuir para um Algarve melhor. Todos.
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Jornal "O Algarve" 03.10.2002