Certamente se lembram deste slogan de um dos ícones da indústria alimentar portuguesa. Esta frase resume de forma minimalista, mas com bastante coerência, um imaginário nacional. O português julga que os produtos nacionais são de facto os melhores. Mas para os tornar concorrenciais torna-se necessário, acima de tudo, exteriorizar este sentimento. Dar-lhe as condições concretas e estruturais para funcionar para além desta imagem que criamos.
O grave problema que vivemos, hoje, está muito além da crise económica internacional, é acima de tudo um questão de brio, convicção e auto-estima. A baixa produtividade dos portugueses é reflexo de um passado recente, de uma sociedade marcadamente enviesada pela doutrina socialista. Não me refiro directamente à acção dos partidos de esquerda, mas na assunção de que este era o único caminho possível de seguir. De uma economia ultra protegida, com um Ultramar que servia de mercado para escoar os produtos de 3ª e 4ª escolha (que tornava desnecessário o investimento em qualidade e inovação), passou-se para a nacionalização absurda e castrante. De um corporativismo fechado e elitista, passamos para um cooperativismo institucionalizado e militante.
O "velho" estado novo pautava-se por um terror absoluto à abertura, à inovação e a tudo o que pudesse introduzir mudanças. Mas, ainda assim, o Português era trabalhador. Hoje, os portugueses que trabalham "lá fora" são produtivos. Porque será que "cá dentro" a produtividade é baixa? Pelo menos sabemos que não é genético, o que já é uma vantagem.
As mais altas instituições desta república (re)descobriram a pólvora. Falam na inovação e no aumento de produtividade, como uma novidade que importa introduzir, mostram-se empresas sucesso, em resumo fala-se dos conceitos e teoria, mas a prática, essa já se torna mais difícil. Não por falta de saber-dizer, mas por problemas no saber-fazer.
O que é Regional é bom...
Os conceitos de inovação, qualidade e produtividade estão por aqui mais distantes. A auto-estrada aproximou Lisboa do Algarve, mas penso que ainda vai levar algum tempo a aproximar o Algarve de Lisboa.
Na nossa região não existem pólos industriais que possam albergar investimentos em tecnologia de ponta, embora as restantes condições estejam naturalmente criadas - o clima, as infra-estruturas básicas e os recursos humanos (qualificados ou qualificáveis).
Existe um déficit ao nível da Investigação & Desenvolvimento, também aqui estamos atrasados. Mas a alteração deste ambiente degenerativo para o desenvolvimento sustentado é possível de resolver. Mais do que financiamentos, considero fundamental promover esta região como destino de localização empresarial. Já vendemos tão bem o Sol e o Golfe, penso que chegou o momento de atrair investimento ligado às novas tecnologias.
Um cenário: Se o desastre do Prestige tivesse ocorrido na nossa costa, quais os resultados finais? Primeiro, uma crise ambiental. Depois, perdíamos as (essenciais) receitas do turismo, desde a hotelaria à restauração, passando pelo comércio, propagando-se de forma viral a toda a economia; a pesca ficava arruinada, com ela a indústria alimentar ligada às conservas e transformação de pescado. Com um simples acidente, ficava arruinada a economia regional. E por quantos anos? Vamos lá reflectir sobre um ditado com tanta utilidade em economia: "Não se devem colocar todos os ovos no mesmo cesto".
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Magazine do Algarve - Julho de 2003