Pois é, mais um "25 de Abril" passou e ainda não conseguimos de forma categórica cumprir todos os "D's" que a revolução dos cravos preconizou.
A descolonização, diga-se de passagem, não foi dos processos mais brilhantes, teve a desculpa de ter sido feita por jovens políticos inexperientes, que tirando os livros da escola ou as grades do regime, pouca experiência tinham. O movimento dos capitães é desconhecido por um conjunto bastante alargado de crianças e jovens, que apenas conhecem, e agradecem, o feriado. Porque será que se investe tanto tempo lectivo noutras estórias e tão pouco com a revolução?
Voltando à democracia... de uma humilhante média de escassos meses de governo, depois de 85, e com a consolidação de 87, foi possível assistir a uma estabilização política, com importantes reflexos no crescimento económico. Pela primeira vez foi permitido a um governo cumprir o "mandato" do "povo". Este conceito de "povo" deu lugar ao de população e deste evoluímos para as populações, fazendo reflectir também aqui a evolução da sociedade estigmatizada com a ditadura e em colectivização, para outra já com outras preocupações, como o indivíduo e o desenvolvimento. No entanto, ainda hoje encontramos na Constituição, e até nos estatutos dos partidos mais conservadores, resquícios de uma herança ideológica marcadamente socialista, que dominou o período pós-revolucionário.
Mas para a minha geração, a de 74, o que significou a revolução? Para além das histórias contadas nas reuniões de famílias? O conceito de democracia, hoje relativamente indiferente, não tem a mesma carga do que para aqueles que viveram sem ela. Ficaram as músicas revolucionárias, mas já sem a noção exacta do seu significado, do seu enquadramento, dos seus motivos. Para esta geração o significado da revolução já é muito ténue. Temos assistido à traição de muitos que precipitaram e participaram na revolução, que entraram na política com a idade da minha geração e nunca mais conseguiram sair. Esta é a democracia que iremos herdar, é pena que não em vida... A política nunca deve ser uma carreira, deve ser uma preocupação; nunca uma forma de sustento, mas uma missão. A geração que sentiu Abril, esqueceu os ideais, ideologias, princípios e são hoje o establishment, são de facto uma espécie de estado velho, desculpem-me o sarcasmo.
Porque é que o mandato de Presidente da República, um cargo eminentemente decorativo na minha opinião, tem um limite de mandatos, enquanto que o Primeiro-ministro e os Presidentes de Câmara não? E os círculos uninominais e a regionalização?
Hoje a democracia e a igualdade são conceitos plásticos, estéticos. Ficam bem em qualquer casa. Mas para muitos como decoração exterior.
O último "D" (desenvolver) tem tido um percurso interessante. Do condicionalismo industrial, passamos para a nacionalização desenfreada, permitindo a fuga de empreendedores e de quadros, que apenas regressaram na década de 90. Nas universidades passavam administrativamente alunos e saneavam professores, o mais importante não era saber o que os livros ensinavam, mas apenas a doutrina dominante, com claras implicações na forma de gerir, de estar e de ser.
Ainda assim, sem entrar em estatísticas, basta analisar estas últimas três décadas, o país cresceu, desenvolveu-se. Mas muito está por fazer. Por reformar. Especialmente nas mentalidades e na política. A renovação não se faz por quotas, faz-se pela vontade de participar. Aqui falhou a minha geração, que se acomodou ao mainstream, fazendo vontades e sendo recompensada por isso, poupando-se ao trabalho de ousar ser diferente. A todos os que chegaram aqui (neste artigo e na vida) deixo votos para que a reflexão e a intervenção façam parte das vossas vidas, contribuindo, acrescentando valor, não apenas dizer presente...
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Magazine do Algarve - Maio de 2003