O Algarve tem uma economia que se baseia num modelo de desenvolvimento que passa essencialmente pela actividade turística, embora sem um planeamento efectivamente regional das políticas, comprometidas pelas diversas estratégias territoriais dos municípios, algumas vezes divergentes. Já é tempo de desenvolver um novo modelo, em concertação, envolvendo os inputs de todos os agentes, públicos e privados.
O Algarve, desde o início desta República, não tem sabido ocupar o seu espaço, seja literalmente, em termos da expansão urbana, seja num sentido mais lato, posicionando-se como uma verdadeira região junto do poder central, defendendo os seus interesses enquanto tal; tão pouco ao nível do turismo, o motor principal da economia regional (e bom contribuinte na rubrica das receitas nacionais), já que a região tem assistido serenamente à destruição de muita da sua costa (importante recurso de diferenciação de uma oferta de qualidade adaptada às necessidades de uma clientela importante), sem planeamento e muitas vezes sem qualquer justificação, que não os interesses financeiros (e reparem como não escrevi económicos).
Deve caber também às associações empresariais algum do protagonismo. Elas sabem que este modelo de crescimento tem sido lesivo para os seus associados a médio e longo prazo. Não foi acautelado, para as gerações futuras, espaço de desenvolvimento o que em si revela a total descoordenação que todos podemos verificar nas últimas três décadas.
Ao nível do ambiente, é caricato assistir aos discursos dos ditos ambientalistas, que pouco pensam na realidade concreta e na sua exequibilidade económica, preocupando-se apenas com a crítica, poucas vezes mostrando alternativas viáveis. Analisam o "custo - custo" de uma dada situação, esquecendo-se na maioria das vezes do "custo - benefício", como é o caso dos campos de golfe, que tanto gostam de contestar. No entanto, são necessários e por vezes desempenham o papel da consciência colectiva, pois estão presentes em discussões que a população por cultura ou indiferença, simplesmente não atende.
Mas felizmente, ainda existe uma grande parcela do território por explorar (a maioria por sinal), ainda que sem uma procura muito expressiva, face ao litoral. O interior do Algarve tem por isso condições para ser um produto vendável. Embora sem as praias do Sul, possui um imenso património natural, com condições para captar nichos de visitantes que procuram na natureza um escape. Claro que este tipo de visitantes diferem dos típicos consumidores do sol e praia, daí necessitarem de uma promoção diferente, assente no privilégio do usufruto da natureza e no seu tipicismo. Este turista tem outras preocupações e interesses. No entanto, existe espaço e certamente interesse em desenvolver e promover o interior enquanto alternativa ao litoral, integrado numa estratégia de diversificação do produto e da oferta.
Em suma, é tempo de pensar na nossa economia regional e local, envolver todos na busca de soluções criativas que permitam de facto lançar o Algarve, mas não só ao nível do turismo, também como espaço privilegiado para o estabelecimento de empresas e indústrias leves. O clima e a qualidade de vida são os argumentos de venda, falta apenas o investimento em estruturas e áreas de localização empresarial dimensionadas e projectadas dentro da "tal" estratégia, não de curto prazo, mas de longo prazo. No futuro, estaremos cá para julgar se as oportunidades que estiveram à nossa disposição, designadamente os QCA, foram aproveitadas. Sem esquecer que as ideologias e partidos (por vezes contraditórios) são importantes, desde que com eles se obtenha desenvolvimento sustentado, caso contrário, o "combate" político é vazio e inconsequente...
Jorge Lami Leal
Técnico de Gestão
Magazine do Algarve - Fevereiro de 2003