logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Um dia…

Acordei. Levantei-me. Reparei que não me sentia bem. Estava estranho. O corpo doía-me. Decidi ir ao meu médico de família. Sentei-me ao computador, liguei a internet, entrei no sítio do meu centro de saúde, digitei o meu número de identificação único com a respectiva password, indiquei alguns sintomas e aguardei. 10 minutos depois recebi uma mensagem de telemóvel (SMS) que me indicava que seria atendido pela minha médica de família dali a 60 minutos. Despachei-me e uma hora depois já estava a ser atendido pela minha médica. Disse-me que não tinha nada de especial, mas sempre me mandou tomar um xarope e uns comprimidos. Pôs-se ao computador, ligado à internet, perguntou-me em que farmácia desejava ir buscar os medicamentos e deu por terminada a consulta.

Quando cheguei à minha farmácia apresentei o cartão de identificação único e imediatamente me entregam os medicamentos e a factura/recibo. Entreguei o meu cartão de crédito digital, coloquei o dedo no sensor e estava paga a conta.

Fui ao café. Afinal precisava de um sítio onde pudesse arranjar água para tomar o comprimido. Comprimido tomado, xarope bebido e meia hora depois sentia-me outro. Enviei uma mensagem de telemóvel à minha médica de família onde escrevi que já estava francamente melhor. Uma vez que estava de férias, resolvi ir tratar de alguns assuntos pendentes.

Resolvi ir a um dos quiosques municipais espalhados pelo concelho. O mais perto ficava a 500 metros. Lá fui eu. Mal lá cheguei fui muito bem recebido: "Bom dia meu senhor. Em que vos podemos ser úteis?". Expliquei que queria saber em que fase estava o meu processo para obtenção de licença de construção. Pediu-me o número de identificação único e, em menos de 1 minuto, disse-me: "O seu processo entrou na Câmara há 15 dias, há 10 foi dado o parecer positivo pelos técnicos, há 5 o Director de Serviços reafirmou o parecer positivo e esta manhã foi aprovado em reunião de Câmara. Aliás, por esta altura já deve ter um e-mail na sua caixa de correio a dar-lhe a boa nova." Agradeci e fui-me embora. Já estava perto da hora do almoço e ainda queria ir às finanças.

Enviei uma mensagem escrita para o número da repartição de finanças local e recebi o meu número de ordem atendimento. Fiquei com o 134 e uma previsão de ser atendido dali a 15 minutos. Como era perto fui andando devagar.

Reparei nas pessoas nas paragens do autocarro e no écran gigante com as previsões da hora da chegada do próximo autocarro de cada carreira. Continuei a caminhada. As finanças eram já ali.

Cheguei às Finanças 5 minutos antes da hora. Uma senhora muito simpática deu-me as boas-vindas e ofereceu-me um café ou uma outra bebida. Optei pelo sumo de laranja natural, bem fresquinho… hummm, que delícia! Mal tive tempo de beber as últimas gotas e já estava na minha vez. Fui atendido por uma senhora de meia-idade, bastante atenciosa e inteligente. Expus-lhe as minhas dúvidas sobre o ISTCO (Imposto Sobre os Totós por Conta de Outrem) e fiquei devidamente esclarecido. Pediu-me o meu número de identificação único e disse que me ia enviar via e-mail documentação mais detalhada para que pudesse analisar mais algum pormenor em casa. Agradeci e despedi-me.

Ainda não tinha fome. Deve ser dos comprimidos ou talvez do xarope, pensei. Bom, uma vez que os serviços ao público, privados e públicos, não fecham para almoço ainda posso ir aos Serviços Municipalizados. Que burrice! Então estive no quiosque municipal e não falei logo neste assunto. Bom, o melhor é voltar para trás!

Assim foi, e passados 10 minutos estava de novo no quiosque. O rapaz de há pouco já lá não estava. Agora estava de serviço uma rapariga jovem, loura, dos seus vinte e tal anos. "Boa tarde, em que posso ser útil?"-questionou. Lá disse que era a segunda vez que ali estava e que o meu problema era com o sistema de reutilização doméstica de águas pouco sujas. Mais uma vez foi-me pedido o número de identificação único, o qual foi introduzido no computador. Trinta segundos depois perguntou-me se os técnicos poderiam ir à minha casa nesse mesmo dia pelas 16h.22. Que hora estranha! Perguntei: "Desculpe lá a pergunta, mas porquê 16.22. Porque não 16.25 ou 16.30?". Ai, a senhora respondeu-me: "Sabe, para nós cada minuto da vida dos cidadãos tem muito valor. Se contamos estar na sua casa pelas 16.22 porquê deixar o seu problema permanecer mais uns minutos. A nossa missão é servir bem e o mais rapidamente possível". Agradeci a atenção e saí.

A paragem do autocarro era ali perto. Ia ter tempo para almoçar descansadamente, analisar os e-mail's da Câmara Municipal e das Finanças, tomar um cafezinho perto de casa e esperar pelas 16.22.

De repente acordei. Olhei à volta e estava tudo escuro. Só via os números vermelhos do meu despertador. Rapidamente concluí que tudo não tinha passado de um sonho…

João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 31.07.2003

 

Jornal do Algarve

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