logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Elites

Elite: substantivo feminino, a flor, o que há de melhor na sociedade, minoria prestigiada a que pertencem os mais aptos, segundo a Diciopédia da Porto Editora.

Ao ouvir uma entrevista a uma personalidade do norte, foi colocada a questão sobre se o norte teria elites suficientes ou se estas existiriam, mas desarticuladas. Foi respondido que existiam, mas actuavam de forma desconjuntada.

Tentei analisar o Algarve em termos de elites.

Se virmos elite como os melhores, os mais qualificados, não nos poderemos guiar pela mediatização dos intervenientes, não necessariamente um reflexo das suas reais capacidades.

Começando pelas Universidades, estas, enquanto detentoras por excelência do conhecimento e com elementos altamente qualificados, não se afirmam em sociedade como poderiam, ficando as suas elites demasiado fechadas no seu mundo académico, contribuindo de forma insuficiente para o dinamismo da sociedade Algarvia.

Na cultura as elites têm alguma dificuldade de afirmação, em parte por sermos uma região com falta de um dinamismo cultural mais fulgurante, apesar de a situação ter vindo a evoluir favoravelmente nos últimos anos. Temos valores da cultura algarvia "exilados" em Lisboa, uma orquestra regional sem algarvios e que não vai deixar sementes e o que por cá temos nunca foi ajudado a ter a projecção que se consegue noutros pontos do País. Quantos temos que cantem, escrevam, pintem ou esculpam o Algarve com projecção nacional? Poucos…

Em termos empresariais, a pulverização de associações, com dimensões que vão desde metade de uma freguesia até toda a região, criou dezenas de presidentes e de estruturas fixas, não conseguindo encontrar uma entidade aglutinadora, com dirigentes de referência, que fossem elementos catalizadores de vontades e capazes de fazer lóbi pelos interesses da economia regional perante as diversas instâncias de poder. E temos empresários capazes mas que já não se metem em entidades nenhumas, já não acreditam, optaram por se ficar pelo desenvolvimento da sua empresa.

No desporto, tirando a vela e um ou outro resultado de nível alcançado esporadicamente, os resultados normalmente quedam-se pela mediania, com poucas figuras de destaque nacional.

A ideia não é traçar um panorama negro. Nem sombrio.

O objectivo é alertar.

Porque as elites, goste-se ou não do termo, são importantes para apontar caminhos, unir os decisores regionais em torno de lóbis e servir de referência.

E nós temos muita gente com qualidade. Alguns, desencantados, optaram por se colocar à margem. Mas, outros há que, desde que devidamente enquadrados e apoiados, poderiam dar o seu contributo.

Importa promover a fixação mais massa cinzenta altamente qualificada na região para que possamos ir mais além.

É crucial apostar mais no que é nosso, seja na cultura ou no desporto, para que a região afirme mais fortemente a sua identidade própria.

Urge cimentar e aprofundar a cultura Algarvia, no sentido mais abrangente da expressão.

Se somos 400 mil, alguns serão os melhores, os mais aptos. É importante que estes tenham preocupações altruístas, que ajudem a fazer do Algarve uma referência nos mais diversos sectores da sociedade.

Articulem-se, porra!

João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 29.05.2003

 

Jornal do Algarve

Comentar este artigo           Imprimir Imprimir

Voltar à Página de João Nuno C. Arroja Neves