logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Comércio: o grande e o pequeno

Em Novembro e Dezembro as grandes superfícies podem abrir ao Domingo durante o dia todo. No resto do ano, só de manhã. Na parte da tarde não podem abrir. Como são grandes têm esta penalização. É uma forma de proteger os pequenos…

Falta dizer que os grandes grupos logo deram a volta ao texto, criando grandes superfícies mas, com vários espaços "independentes" lá dentro. Assim, nenhuma destas "pequenas superfícies" por si só é grande superfície e já podem todas abrir ao Domingo, ao mesmo tempo, durante o dia todo.

Antes de o leitor tirar conclusões, afirmo desde já que sou contra esta proliferação de grandes superfícies (nalgumas cidades até temos grandes supermercados para a troca - leia-se mais do que um da mesma "marca") e que o Estado tem a obrigação de impor regras e estabelecer limites.

Em Faro, um centro comercial com cinema, supermercado, lojas, restaurantes, etc está transformado num fantasma, à beira de fechar. Em grandes centros comerciais é normal fecharem umas lojas e abrirem outras. As grandes superfícies, os grandes super-mega-hiper-mercados não são negócios infalíveis…. e se muitos ganham dinheiro, outros também perdem e vivem hoje em difícil situação económico-financeira… Ou seja, não é uma mina de ouro, que faz bem a todos, arranja muitos empregos e cria riqueza no concelho.

Muitos autarcas abrem a boca para dizerem que com a instalação do centro comercial X ou espaço comercial Y vão ser criadas centenas de postos de trabalho e muita riqueza no seu concelho. Os postos de trabalho, enquanto número, pouco significam. Interessa saber, no meio das tais centenas, quantos são para técnicos qualificados e quantos são para quase indiferenciados. E já agora a precariedade dos mesmos. O desenvolvimento de um concelho faz-se, também, pela atracção de actividades económicas que empreguem recursos qualificados, quer humanos, quer tecnológicos. É importante chamar para cada concelho quadros qualificados, craques, tipos excelentes numa certa área. Estas pessoas vão ser futuros agentes dinamizadores de desenvolvimento e progresso locais. Por isso, quando se falarem em centenas de postos de trabalho, fale-se da qualificação pretendida e dos salários oferecidos para que se possa avaliar a situação mais correctamente.

A riqueza, pode ser criada, mas como as sedes destes grupos não são na nossa região, alguns nem no nosso país, é fácil perceber para onde vai …

O comerciante tradicional assiste a tudo isto e reclama. Que vende menos. Que os grandes levam tudo. Que qualquer dia fecha as portas. Que o Governo não apoia.

Muito poucos se associam - aliás, em Portugal é complicadíssimo que as associações funcionem -, raros são os que se candidatam a programas comunitários para reestruturar o negócio (e em muitos casos o consultor é que faz o projecto e o empresário não é tido nem achado!) e ainda mais difícil é encontrar os que voltam ao início. Voltar ao início é começar de novo. Analisar o negócio actual e ver que o Mundo à volta já não é o mesmo, logo os produtos e/ou serviços oferecidos terão que ser outros ou de outra maneira.

Por exemplo, uma mercearia que não queira ter apenas os clientes que se esqueceram de comprar arroz no supermercado ou o vizinho a que se acabou o sal naquele momento, ou seja, que queira ter uma clientela fiel e regular, não vai ter o mesmo pão, queijo, charcutaria, carne, fruta do que o grande supermercado! Não consegue acompanhar os preços! Tem que ser diferente, deve arranjar fornecedores que lhe forneça produtos menos industrializados, mais tradicionais e com sabores que façam a diferença. E se vendia pão e presunto, poderá passar a vender sandes de presunto! E se calhar terá que abrir ao Domingo. E fazer entregas ao domicílio. E criar um sítio e vender na Internet. E, e, e, e…..

Os grandes espaços comerciais não são remédio santo para o desenvolvimento dos concelhos, mormente para a criação de riqueza e de postos de trabalho. São uma evidência e como tal devem ser encarados.

Os pequenos comerciantes podem adoptar duas posturas diferentes perante toda esta situação: o parado, rezingão e reactivo e o empreendedor, proactivo e inteligente.

O segundo tem mais hipóteses de sucesso porque acompanha o tempo em que vive.

O primeiro vai desaparecer e os grandes espaços comerciais só vieram apressar o fim. Fechados, ou não, aos Domingos à tarde!

João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 28.11.2002

 

Jornal do Algarve

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