logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Esforço, Rigor & Excelência

Logo se resolve. Está mais ou menos. A ver se também consigo um subsídio. Vou pedir à Câmara. Assim, já desenrasca, está óptimo. Eu meto uma cunha a um tipo.

Estas frases comuns, que todos ouvimos no dia-a-dia, reflectem bem o estado de espírito actual de muitos Portugueses: ênfase nos seus direitos, pouco atenção aos seus deveres e uma cultura de vida baseada no facilitismo.

Ao longo dos últimos anos esta cultura foi sorrateiramente incentivada no nosso país, diminuindo o grau de exigência do Estado perante os cidadãos, seja na Escola, na Universidade, pela Polícia ou nos restantes Organismos Públicos.

Vejam-se os milhares de multas de trânsito que nunca foram cobradas e as que foram perdoadas, o que se passa na GNR-BT (Albufeira, por exemplo…), os processos em tribunal que prescrevem a um ritmo alucinante, as cobranças coercivas que a máquina fiscal não tem capacidade para realizar e que se perdem, a área da saúde que tem vindo a gastar demasiado em relação ao serviço que oferece, uma Função Pública a precisar de ser reformada, optimizada e direccionada para o cidadão e o ensino básico onde o professor perdeu autoridade. Um dia destes, ia passando perto de uma escola primária, e vejo uma criança, dos seus 7/8 anos, a chamar nomes a um Policia.

Sinais dos tempos?!

Um amigo meu contou-me há tempos que a empresa para a qual trabalha se esforça por comprar produtos em Portugal mas, não consegue. Cada vez que tenta, o produto ou vem tarde e a más horas, ou vem danificado ou é da fraca qualidade. Logicamente, já se virou para outros Países, que cumprem prazos e são exigentes na qualidade. E um presentinho para que eu lhe compre a si e não ao rival? O mau atendimento ao público que temos, genericamente, no Algarve, como se o cliente estivesse a fazer um favor ao vendedor e este, enfadado, se resignasse a atendê-lo.

Muitos cidadãos também já optaram pelo facilitismo. Começa logo pela forma como se estaciona o carro, da forma que mais facilite a vida ao próprio, pouco importando quem está à volta. E se recebo subsídio de desemprego, porque razão hei de aceitar uma qualquer oferta de emprego sem antes esgotar todo o subsídio a que tenho direito e todos os estratagemas legais possíveis? Se tenho um café, uma pastelaria ou uma oficina porque razão hei de pagar impostos? Se há subsídios da CEE porque é que eu também não tenho direito? Que melhor emprego do que ser "Assistente à Força de Estacionamento Automóvel", não pagando impostos e prestando um serviço, na maioria das vezes, manifestamente inútil e sem o Estado fazer nada? Analisem-se os milhares de cheques carecas que circulam no dia-a-dia, os empréstimos bancários que não se cumprem e os cartões de crédito que não se pagam. E, a cereja em cima do bolo, que tal um Rendimento Mínimo Garantido, que está difícil de tornar menos imoral, que fomenta actividades paralelas e ilegalidades, como se viu pela bonita percentagem de cerca de 76% dos beneficiários Algarvios que viram recentemente o subsídio cortado por vários vícios?

Esforço, Rigor e Excelência.

Esforço porque as coisas dadas, para além de terem menos sabor, são habitualmente efémeras. E sem suor este País não sai da cepa torta.

Rigor porque tem que haver regras iguais para todos e forma de a sua aplicação ser fiscalizada. Aliás, a grande mina que o Estado tem por explorar para equilibrar o Orçamento de Estado é, sem sombra de dúvida, a fiscalização. E o desenrascanço serve para um percalço, o standard devem ser o cumprimento de prazos e a qualidade.

Excelência porque temos que ser bons, dos melhores. Bons técnicos, bons políticos, bons gestores, bons artistas, bons cidadãos. Num Mundo globalizado e altamente competitivo a massa cinzenta faz toda a diferença.

João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 24.04.2003

 

Jornal do Algarve

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