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Até já Farense!

Dia 18 de Novembro ficará para a história do Sporting Clube Farense. E da Farense Futebol SAD. Foi o dia em que o futebol profissional foi suspenso, acarretando a descida automática à 1ª divisão distrital para a próxima época.

Desde há vários anos que o emblema mais representativo do desporto algarvio tem vindo aos trambolhões nos campeonatos de futebol. Enquanto se aguentou na 1ª Liga todos os anos aparecia dinheiro para mais um ano de futebol. Fosse pela antecipação de receitas, fosse através de alguns patrocínios. Com a descida à 2ª Liga tudo piorou. Manteve-se no escalão em termos desportivos, mas desceu a seguir por não apresentar as condições necessárias para participar na competição. Depois foi a 2ª Divisão B. Seguiu-se a 3ª Divisão. Agora vai para a 1ª Divisão Distrital.

A forma de gestão em voga no Futebol Português durante muitos anos, leia-se "gasto o que for preciso para o meu clube não descer e a próxima direcção que feche a porta" fez escola no Farense. As dívidas ao Fisco, Segurança Social e funcionários (com ênfase para treinadores e jogadores) foram-se acumulando. Salários milionários foram pagos a jogadores e treinadores.

Quando o Dr. Gomes Ferreira tomou conta dos "Farenses" em 2002, deparou-se com uma estrutura bicéfala, com dois Farenses distintos, um em cada andar e com estruturas autónomas (e com custos a duplicar). Durante estes últimos anos conseguiu racionalizar custos e optimizar os parcos recursos. Não foi suficiente. A falta de apoios que teve não lhe permitiu fazer mais. Este último episódio com o actual Presidente da Câmara (a novela da escritura recusada pela Câmara em cima do minuto 90 para doar ao clube quatro parcelas do terreno do Estádio S. Luís) foi mais uma cena de uma novela que já vem de trás. Nunca houve uma vontade política efectiva para relançar o clube. Existiram apenas alguns projectos para dar alguns fundos ao clube, que até hoje não se concretizaram.

Agora, mais do que encontrar os responsáveis por este insucesso, importa olhar para o futuro e preparar o clube para os enormes desafios que vai ter de enfrentar. A SAD e o clube possuem pesadas dívidas e alguns dos seus antigos e actuais dirigentes têm garantias pessoais pendentes, estando alguns a substituir-se a estas entidades, pagando do seu bolso as suas dívidas.

Acima de tudo há que definir um modelo de gestão adequado, que terá de passar por uma gestão criteriosa dos recursos disponíveis, pela negociação das dívidas existentes (as que foram passíveis de negociação...), pelo equilíbrio entre despesas e receitas (sendo aqui fundamental a fiscalização dos sócios e accionistas, bem como dos respectivos conselhos fiscais), pela criação de novas fontes de receita, criação de novos benefícios para os sócios (descontos em lojas, restaurantes, etc de forma a que não deixem de pagar quotas e permaneçam no clube), definição das modalidades desportivas que trazem mais-valias ao clube e funcionários, dirigentes e voluntários com espírito de profissionalismo e que "toquem todos os instrumentos" (leia-se ter pessoas capazes no marketing, sócios, modalidades, tesouraria, etc).

A Câmara Municipal de Faro tem um papel importante a desempenhar nesta situação, não injectando dinheiro para o futebol profissional, mas continuando a apoiar as modalidades amadoras e criando, em conjunto com o clube, fontes de receita permanentes para este. Mais do que dar o peixe, interessa que dê uma frota de embarcações de pesca! E pode também ajudar a convencer o meio empresarial da viabilidade de um novo projecto para o clube/SAD. Mesmo sem escrituras…

Esta última questão é importante, pois as empresas de Faro nunca apoiaram muito o Farense. Para além de os seus donos não serem, na sua maioria, Farenses de gema, logo com uma menor identificação sentimental com o clube, o facto de Faro não ser uma cidade eminentemente turística diminui a apetência pelo investimento em publicidade. Novas formas de parceria terão de ser encontradas, sendo a promoção de desporto para os funcionários de empresas, em horário pós-laboral, uma dessas possíveis soluções.

Um problema que é geral mas que também tem implicações neste caso, prende-se com o desaparecimento gradual dos "carolas". Esta espécie, em vias de extinção, de pessoas que de forma gratuita e abnegada se dedicam a causas várias, pode também ser crucial, pela disponibilização de mão-de-obra qualificada e gratuita que é posta ao serviço do clube/SAD.

Sou sócio do SC Farense há 20 anos. Sofri com este caminho da glória ao inferno. Agora que já descemos tudo o que tínhamos para descer, que já sofremos o que tínhamos para sofrer, chegou a hora da reviravolta, de cimentar o clube, pouco a pouco, para que volte aos tempos áureos a que nos habituou e por lá fique.

A diferença entre sonhar e realizar está apenas na nossa capacidade de pôr mãos à obra.

João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 22.12.2005

Jornal do Algarve

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