Um 25 de Abril para todos!
Aproxima-se a comemoração dos 30 anos do 25 de Abril de 1974. Trata-se de um momento importante para reflectirmos sobre o que vai bem e menos bem na nossa democracia e, acima de tudo, comemorarmos esse bem que não tem preço e que dá pelo nome de liberdade.
Sempre me questionei das razões pelas quais as esquerdas (partidária e sindical) sempre "açambarcaram" as comemorações deste dia, quando afinal de contas ele pertence a todos os democratas e partidos democráticos do nosso País. Apesar de o centro-direita e a direita terem habitualmente uma menor participação nestes eventos, considero que a esquerda sempre viu esta participação como uma intrusão num património seu, um certo meter o nariz num terreno que não lhe pertence.
Aliás, uma situação que persiste na nossa democracia é o facto de alguns dos partidos com assento na Assembleia da República continuarem a considerar outras forças políticas como não-democráticas. Tirando o PSD e o PS todos os restantes partidos consideram os da "outra banda" do espectro eleitoral como não-democráticos.
Por outro lado, é estranho que nos nossos dias ainda seja um elogio dizer que alguém é de esquerda e uma ofensa dizer que é de direita, como se não fossem ambas posições legítimas no xadrez da nossa democracia.
Penso que é altura de aceitarmos todas as diferenças que naturalmente existem e considerá-las normais em democracia. Sem demais qualificações.
Penso que neste aniversário da revolução dos cravos poderemos ver todos os partidos com representação parlamentar a comemorarem o 25 de Abril, o viver em liberdade.
Dos 3 D's do Programa do MFA (Democratizar, Desenvolver, Descolonizar), o terceiro já se deu, o primeiro está alcançado, mas convém ir sempre alimentando e o segundo está a ser conseguido, sendo hoje o nível de desenvolvimento do País muito superior do que o de há 30 anos.
Considero, no entanto, que a forte carga revolucionária da altura já deveria ter sido mais suavizada, enquadrada nos dias de hoje, o que não acontece por parte de alguns sectores mais esquerdistas que, em cada 25 de Abril, nos tentam transportar para 1974, disparando contra o patronato, vociferando contra os Governos, exigindo tudo e mais alguma coisa aos Governos, entre outros.
Passados 30 anos sobre o 25 de Abril de 1974, está na altura desta data ganhar uma nova dimensão, menos voltada para o passado e mais apostada no nosso futuro partilhado. A participação cívica, a qualidade da nossa democracia, o desafio da qualificação dos Portugueses, o acesso da população aos serviços mais básicos (educação, saúde, água potável, saneamento básico, cultura), a integração dos imigrantes, causas e soluções para a pobreza serão certamente temas muito mais actuais e que enriquecem mais a nossa sociedade.
Está na altura de todas as forças partidárias comemorarem o 25 de Abril de forma igual, sem atitudes de posse exclusiva de um património que pertence a todos os Portugueses.
Cada um de sua forma, respeitando os outros, poderemos fazer de cada 25 de Abril um paradigma de cidadania activa, festejando a liberdade e debatendo as grandes questões que se nos colocam.
João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 15.04.2004
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