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Mãe, Pai, quero ser pedreiro!

Estranhou o título, não foi? Eu também o estranho e caso tivesse um filho que me fizesse esta pergunta não sei bem o que responderia. Infelizmente.

A nossa sociedade está marcada pelos doutores. Qualquer licenciado é catalogado de doutor. Na Administração Pública por vezes nem se trata a pessoa pelo nome, é o doutor. Perdemos o nome e ganhamos um título! Um amigo meu que é bacharel e odeia que lhe chamem doutor costumava responder: "Eu não sou da Tôr, sou de Almancil!!!".

Os pais sonham que os seus filhos também venham a ser doutores. Pensam que o doutor ganha mais, tem um trabalho fisicamente menos exigente e com maior dignidade social.

Penso que o "trauma" vem do antigo ensino profissional (escolas comerciais e industriais), que foram abandonadas no pós-25 de Abril. O ensino mais técnico deixou de ser bem visto e a Universidade passou a ser o objectivo de todos. Com a proliferação das Universidades por todo o País o ensino universitário passou a ser, felizmente, mais acessível.

O problema é que o País não precisa só de licenciados. Os técnicos são fundamentais. Precisamos de bons técnicos de construção civil, mecânica, informática, hotelaria e restauração, carpintaria, serralharia civil, calcetaria, electricidade, canalizações, topografia, cortadores de carnes verdes, etc.

A questão está no desequilíbrio existente actualmente. Cada vez mais licenciados e cada vez menos técnicos qualificados. E a tendência que se vislumbra é para a situação ser cada vez mais de desequilíbrio.

Reconheço que a taxa de licenciados e bacharéis do nosso País é ainda inferior à média da União Europeia, mas o crescimento brutal que se tem dado não permite que o mercado de emprego absorva todos rapidamente. Será um processo lento e dependente de mudanças organizacionais. Com um tecido empresarial composto na sua esmagadora maioria por pequenas e micro empresas, poucos empresários e muitos patrões, pouca apetência para o risco e para a inovação, torna-se difícil a entrada desta mole de recém-licenciados rapidamente no tecido empresarial.

Por outro lado, cada vez mais as empresas precisam de técnicos especializados. Não existindo os suficientes, ou vão contratar a outras empresas (o que implica aumentos de vencimento) ou admitem pessoas indiferenciadas, sem qualificação, que irão aprender pela prática. Nestas condições, vamos ter aumento de preço pelo serviço qualificado ou o mesmo preço por um serviço não qualificado.

E nós, para aqueles pequenos arranjos caseiros (o cano roto, a tomada que avariou, a porta que é preciso substituir, a persiana que se partiu, o cinzeiro apagado -piada ao amigo Abrunhosa!), temos que continuar a pagar caro o serviço, muitas vezes prestado por profissionais pouco qualificados, que aprenderam pela prática, com conhecimentos teóricos muito rudimentares.

Actualmente estas profissões exercidas em regime liberal dispõem ainda de uma vantagem competitiva bastante perniciosa, mas, infelizmente comum no nosso País, a informalidade. Deixemos este assunto para próximo artigo…

Em termos de remuneração, estas profissões técnicas são bastante bem pagas e não são nada desprestigiantes. Aliás, ganha mais um electricista ou carpinteiro do que um qualquer técnico administrativo…. Por vezes duas e três vezes mais… E se o indivíduo apostar em formação profissional, certamente terá um melhor desempenho, o que corresponderá um maior rendimento.

Temos que nos deixar de complexos e pensar que todas as profissões são importantes, que não há profissões mais ou menos dignas, existem apenas profissões com maior incidências na parte física e outras na parte intelectual - sem qualquer desprimor para qualquer uma delas. E esta mensagem tem que ser passada aos jovens pelos seus pais e professores, entre outros.

E você, acharia piada a ter um filho pedreiro?

A dignidade está nas pessoas, não nas profissões!

João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 11.03.2004

Jornal do Algarve

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