E agora Sporting Clube Farense?
Sou sócio do SCF desde os meus 13 anos. Lembro-me bem do esforço que fazia para gerir a minha parca mesada de forma a conseguir pagar as quotas. É com tristeza que hoje observo a sua situação de descalabro (do clube e da SAD), quer em termos económico-financeiros, quer desportivos.
Com a descida à II Liga, e com a hipótese de descer para a 2ª Divisão B caso não apresente declarações de situação regularizada com a Fazenda Pública e com a Segurança Social, tudo se desmoronou. O balão de oxigénio - leia-se receitas da I Liga - esvaziou-se e o Farense SAD está em maus lençóis. Na II Liga os custos são quase idênticos aos da I Liga, sendo as receitas bastante inferiores. Tudo terá que ser repensado.
O caso do Farense clube também é preocupante, com elevadas dívidas, parte? das receitas penhoradas e fontes de receita mínimas. Agora que em grande parte dos clubes o futebol profissional está separado das restantes actividades, ditas amadoras, está na altura de se proceder ao saneamento dos clubes.
O Estado deverá substituir as dívidas dos clubes à Fazenda Pública e à Segurança Social por obrigações dos mesmos perante a sociedade, por exemplo, obrigando os clubes ao fomento da prática desportiva para os jovens ou através de outra hipótese mais imaginativa. Toda a gente sabe que aquelas dívidas jamais serão pagas e a opção passa por tentar obter alguma coisa em troca do perdão da dívida em favor de toda a comunidade em vez de ficar à espera que os juros de mora aumentem a dívida e, qualquer dia, tornem o Estado o maior proprietário nacional de ginásios e estádios de futebol. Algo tem de ser feito!
O caso do Farense SAD é mais bicudo.. O Dr. José Vitorino recebeu uma oferta inesperada e agora tem que se haver com o domínio da Câmara Municipal de Faro no capital da SAD. Com o aumento de capital a ficar bastante além das expectativas, a gestão desta empresa - lembre-se que se trata de uma empresa… - não se afigura nada fácil, ainda mais se se mantiverem salários em atraso que podem sempre provocar rescisões por parte dos jogadores. E se os jogadores se vão embora a custo zero, é imobilizado que sai e a empresa fica mais pobre.
Não defendo aqui uma intervenção do Estado na óptica de ajudar à limpeza de créditos. As SAD's são empresas, visam o lucro, têm como accionistas os clubes e privados, e o Estado não é a Santa Casa da Misericórdia para acudir a todos. Tem outras prioridades.
O que defendo é a utilização do Farense SAD, enquanto maior emblema desportivo abaixo do Rio Sado, para divulgação da Região Algarvia. A Região de Turismo do Algarve sempre manteve um desprezo pelo Farense SAD (lembre-se que não quis entrar para o capital da SAD aquando da sua constituição…), preferindo apostar em Pavarottis e outros, descurando o Farense como carta da região. Veja-se o caso da Madeira, de Paços de Ferreira, dos Açores…. Os próprios empresários com interesses no Algarve também poderão apostar numa parceria estratégica com o Farense SAD, como forma de dar maior visibilidade à região onde têm os seus negócios. E depois… a gestão é crucial, como em qualquer empresa. Uma SAD com dezenas de espaços publicitários no estádio por ocupar, gestão de sócios inexistente, recursos humanos escassos, marketing nulo e uma sensação de navegação, ops… gestão à vista, sem objectivos a alcançar, nem estratégias para lá chegar não é uma "best-pratice" de gestão de SAD's….
Esta descida à II Liga, poder-se-á tornar uma saudável cura de emagrecimento, permitindo criar estruturas sólidas e voltar à I Liga com maior pujança e saúde económico-financeira.
Para que o Algarve volte a ter um embaixador ilustre por esse país fora….
João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Notícias do Algarve 28.05.2002
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