Democracia Selectiva
Não sou de extremos, nem à esquerda, nem à direita.
Sou pela Democracia, entendendo esta como um "jogo" honesto, com regras definidas à partida e aceites por todos.
Não sou pela demoniazação de actores políticos, nem pela mediatização direccionada e premeditada.
Sou pela igualdade entre os votos, independentemente do sítio onde têm uma cruz assinalada.
Todo este preâmbulo serve só para tentar desmistificar o que se passa em França com o Sr. Le Pen e o que sucedeu há não muito tempo com o Austríaco Sr. Haider.
O Sr. Le Pen foi autorizado a participar nas eleições presidenciais Francesas, pelo que se supõe que reunia todas as condições legais para ser Presidente de França.
O Sr. Le Pen teve os votos dos cidadãos e cidadãs que decidiram livremente votar nele. Não consta que tenha existido fraude.
O Sr. Le Pen obteve os votos que lhe permitiram passar à 2ª volta das eleições presidenciais.
As manifestações dentro da legalidade são, em princípio, absolutamente legítimas. O que me choca é o facto de serem contra um resultado eleitoral de um candidato, estando ambos, resultados e candidato, dentro da lei. São cidadãos a reagir contra o que a França não quis e a recriminar os que não são iguais a eles, como se pudessem alterar o que está feito. E são manifestações contra uma pessoa e o que ela, possivelmente, encarna: aprecio mais eventos a favor de algo, em que se luta pelo que quer. Mas isto deverá ser só uma questão de feitio…
O Sr. Chirac também não quis debater a dois. Com uma esmagadora vitória garantida por sondagens, para quê debater com alguém que é vaiado diariamente por milhares de compatriotas e dado como previsivelmente esmagado eleitoralmente? É outro tique que dispenso. Este meu feitio…
E agora a pergunta fatal: e se o Sr. Le Pen ganhar as eleições? Já ouvi falar em revolução!!!! O baluarte da democracia Europeia liderada por um fascista! Que cenário pavoroso! Que vergonha para a grande França! Se o cenário "vergonhoso" acontecer é porque a maioria dos eleitores Franceses, certamente apelidados de fascistas por alguns, estarão descontentes com a situação actual e considerarão esta a melhor proposta para o seu futuro e o do seu País. E quem lhes pode negar esse direito?
Todos os países democráticos têm leis que não podem ser alteradas por "dá lá aquela palha". O Sr. Le Pen, chegado ao poder, não terá certamente poderes absolutos para tudo alterar e radicalizar. Outras instituições e outras forças poderão servir de contra-poder e suavizar a maioria dos extremismos pretensamente preconizados por ele. Até que em novas eleições os donos dos votos acreditem noutros projectos, certamente vindos de pessoas/partidos mais coloridos (e menos cinzentos…) e com projectos de sociedade mais mobilizadores.
Porque numa democracia considerar-se que só uns podem ganhar, e é este o espírito por trás de tudo isto, faz-me lembrar outra coisa que também rima com democracia, mas cheira bastante mal e muitos a fazem permanentemente…
João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Notícias do Algarve 06.05.2002
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