Dignificar o Trabalho!
A ambição dos pais, relativamente ao futuro dos seus filhos, prende-se com o curso universitário (necessário para o filho ser Doutor ou Engenheiro) e depois uma profissão de "colarinho branco", que envolva o mínimo de esforço físico e, provavelmente, sentado a uma secretária. Se o filho não puder tirar o curso, ao menos que tenha a secretária!
Os filhos, rodeados por uma cultura de facilitismo e de preconceitos, aspiram a uma profissão "limpa", sendo para tal necessário alcançar o desejado "canudo". O "canudo" é visto como o meio para ultrapassar dificuldades e um trampolim para fugir às profissões menos dignas???. O mercado de trabalho suspira por electricistas, carpinteiros, pedreiros, calceteiros, serralheiros, cortadores de carnes, empregados de mesa, etc. Dificilmente as empresas os obtém, nomeadamente profissionais melhor qualificados. A recente entrada de emigrantes veio alterar um pouco a situação, mormente no que concerne a profissionais menos qualificados ou qualificados noutras áreas que não a que exercem no nosso pais, logo não qualificados para a função que exercem.
A oferta formativa para estas profissões existe e só não existe em maior quantidade porque conseguir formandos devidamente motivados para estás áreas é uma tarefa complicadíssima.
A generalidade dos profissionais que exercem as profissões atrás referenciadas auferem vencimentos bastante generosos, superiores muitas vezes aos de licenciados. Lembra-se quanto pagou da última vez que um canalizador ou pedreiro foi à sua casa?
Resumindo e baralhando, em relação a estas profissões temos:
· Grande procura de mão-de-obra;
· Oferta formativa para os indivíduos;
· Remunerações bastante compensadoras;
· Preconceito social fortíssimo contra estas profissões.
Posto este cenário, há algo que não bate certo e que destoa do conjunto. Acertou! É o preconceito.
Parece ser mais nobre ser um licenciado desempregado do que um carpinteiro que exerça a sua profissão. Será mais motivante receber 80 cts. para estar 8 horas por dia numa secretária ou numa caixa de supermercado, ou receber 200 cts. se for um bom serralheiro ou pasteleiro?
Acrescente-se que estas profissões, ditas "sujas", hoje em dia o são cada vez menos. Os cortadores de carnes trabalham bem vestidos e equipados e não chegam a casa cheios de sangue! Os carpinteiros utilizam protecções e não chegam a casa cheios de serradura!
Se a situação permanecer assim, se não houver mudança de mentalidades e de atitudes, corremos o sério risco de, em poucos anos, pagarmos mais pelo conserto de uma torneira do que por uma consulta médica. Ser mais cara a reparação da instalação eléctrica do que a elaboração de um projecto de investimento. Entretanto, pagamos subsídios a professores licenciados no desemprego e outros vindos de áreas de formação que o mercado de trabalho não precisa...
Mas aí será tarde!
A altura de intervir é agora!
Até em termos económicos este preconceito é prejudicial!
Caros Professores: aproveitem o vosso tempo de antena para incutir a nobreza do trabalho nos jovens e a necessidade do esforço para se ser alguém na vida.
Caras Famílias: deixem-se de preconceitos e incutam nos vossos jovens que a nobreza está nas pessoas, mais do que nas profissões.
Cara Comunicação Social: divulguem mais exemplos de jovens de sucesso oriundos destas profissões mais marginalizadas socialmente.
Porque o sabão e os seus parceiros servem para limpar o que se sujou na labuta do trabalho. Mas, o indivíduo sujo, esse, coitado! Não há sabão que o limpe!
João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Notícias do Algarve 29.10.2001
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